Saúde como boa notícia | Arquidiocese de Fortaleza
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Saúde como boa notícia

A 27 de março de 2020 o Papa Francisco invadiu o silêncio da vazia praça de São Pedro para um momento de oração e benção, pela superação da pandemia do Corona vírus. Tal atitude do Papa Francisco, acompanhada de diversas outras, como doar materiais e aparelhos de saúde para outros países tem marcado a presença da Igreja neste momento tão difícil que a humanidade está enfrentando. A CNBB, em comunhão com o Papa, tem tomado diversas medidas que colaboram para evitar uma maior propagação do vírus e consequentemente os óbitos que isso possa causar. Todas estas posturas são, na verdade, o entendimento da saúde como boa notícia, a saúde como evangelho. É nessa vivência da saúde como evangelho que encontramos as marcas do Servo de Deus, Dom Antônio de Almeida Lustosa. Seu ministério episcopal foi profundamente marcado pelo cuidado com a saúde das pessoas, especialmente daquelas que pela pobreza estavam mais expostas a enfermidades e teriam pouco acesso ao atendimento necessário. Para Dom Antônio, a saúde é uma boa notícia.

O Servo de Deus, Dom Antônio de Almeida Lustosa, exerceu seu ministério por quatro circunscrições eclesiásticas, duas dioceses e duas arquidioceses, respectivamente: Uberaba-MG (1925-1928); Corumbá-MS (1929-1931); Belém-PA (1931-1941) e Fortaleza-CE (1941-1963). Antes da exposição propriamente de seu zelo pelo saúde de seus diocesanos, é importante ressaltar que nos anos do ministério de Dom Lustosa, a presença do Estado no serviço de saúde, isto é, a saúde pública não era uma presença tão efetiva como é hoje, com um sistema organizado que em muito provê o atendimento das pessoas, apesar das inúmeras melhorias a que este sistema poderia se submeter, mas o importante é lembrar que nos dias de Dom Lustosa, havia outra realidade, com menor presença do poder público. Enfatizo isto para evitar juízos anacrônicos, que causem prejuízo à proposta do texto. Dito isto, podemos seguir.

Dom Antônio de Almeida Lustosa, Servo de Deus, tinha uma profunda compaixão com as questões sociais, fosse com a educação, com o trabalho e especialmente com a saúde. O seu pastoreio é marcado por essa dimensão. Ao chegar em Uberaba, ainda em 1925, vendo a que estavam expostos os enfermos, muitas vezes desvalidos, ele procurou com um grupo de senhoras prover a construção da Santa Casa de Misericórdia, pois a primeira, construída em 1856, pelo Frei Eugênio Maria, havia sofrido um incêndio em 1921, a ajuda seria apoiando o poder público; no entanto, dada a dimensão onerosa da obra e as burocracias que envolvia, percebeu ele uma certa demora, por isso, num ato de compaixão, sentindo com os que sofriam, quis ele, com o grupo de senhoras, já providenciar uma enfermaria que urgentemente pudesse atender aos mais pobres. Diz Dom Lustosa, em consulta ao então dr. Ferreira,

Sob a denominação de Legionárias de Santa Teresinha, há aqui um grupo de senhoras de grande boa vontade que procuram levar auxílio aos pobres e doentes. Vêm-se elas, porém, frequentemente embaraçadas para socorrer a doentes que só internados em um hospital poderiam ter algum conforto e tratamento. Nasceu daí, a ideia de fundarmos uma enfermaria para acolher aos pobres que não encontram mais lugar na Santa Casa. Essa enfermaria muito modesta serviria enquanto não se abre a nova Santa Casa, a qual pelas proporções que terá, não pode ser de momento construída. (Dom Lustosa, 1927)

A sensibilidade do Servo de Deus é profundamente operante, lembra a frase popular, “quem tem fome tem pressa”, que poderíamos adequar na compaixão de Dom Lustosa, “quem tem dor tem pressa”. É com essas zelosas senhoras, mulheres da caridade, que o Servo de Deus vive essa compaixão em Uberaba. Havia nele, como visto neste bilhete e também em outras passagens de seu ministério, uma predileção pelos empobrecidos, queria lhes dar o mínimo de conforto e tratamento. Isto assemelha-se ao coração do Bom Pastor. Um coração que sente com as ovelhas que sofrem, por isso tem pressa; ele não quer improvisar, quer aliviar a dor. Eis a saúde como boa notícia, como evangelho.

Em outra mensagem, escrevendo ao mesmo dr. Ferreira, também de 1927, lembra que desde de 1925, quis ele com os seus “fracos préstimos” colaborar com a construção da nova Santa Casa. Era um contexto distinto do momento atual, mas podemos ver os traços de santidade, que cabe não apenas a Dom Lustosa, mas a todo batizado: sensibilidade com a saúde das pessoas, o cuidado e a corresponsabilidade para aliviar o sofrimento humano. É assim que a passagem de Dom Antônio de Almeida Lustosa marca a agora Arquidiocese Uberaba, seja por seu cuidado com a saúde, também com a educação, a catequese e tantas outras grandezas do testemunho cristão.

Após a então diocese de Uberaba, Dom Lustosa é transferido para a diocese de Corumbá. Quando ele assume esta diocese, o seu território correspondia ao que hoje é praticamente todo o Estado do Mato Grosso do Sul. Um vasto território, com desafios montanhosos, mas serenamente enfrentados pelo Servo de Deus.

Em Corumbá a questão da saúde possuía diversas faces dolorosas, porém, uma se sobressaía, a malária. É devido a tal mal que Dom Antônio de Almeida Lustosa fortalecerá uma parceria com as Irmãs Salesianas nos trabalhos no hospital de Três Lagoas, com a finalidade de otimizar o desempenho. Ele, durante os dois anos que esteve em Corumbá regularmente trazia a preocupação com o hospital de Três Lagoas às reuniões com os Consultores, tratando de sua manutenção e atendimento. Em abril de 1929 ele escreve à então Inspetoria Salesiana de Cuiabá, solicitando que a superiora pudesse enviar mais irmãs ao hospital, para melhor atender a comunidade.

Em agosto de 1929 firma contratos em Três Lagoas, com a finalidade de melhorar o atendimento do hospital. As parcerias eram com instituições beneficentes, com as obras das irmãs salesianas e com o Estado brasileiro. Em maio de 1931, mediante a ameaça de suspensão dos repasses do governo central, o Servo de Deus intervém, solicitando que não se concretize tal ameaça. Dizia ele que aquele era o único hospital que atendia aos ribeirinhos e tantos outros numa vasta extensão de terras. Por isso escreveu ao então chefe do governo, Getúlio Vargas, disse Dom Lustosa em telegrama: “Sr. Exmo. faz-lhe notar que o hospital de Três Lagoas é o único recurso das vítimas da malária que reina na vasta zona entre o Paraná e Parahyba [sic]; pedindo-lhe impedir a suspensão da verba de auxílio” (Dom Lustosa, 1931).

Quando então é transferido para a arquidiocese de Belém, o Servo de Deus escreve ao Núncio Apostólico, Dom Bento Aloisi Masellla, prestando contas de seus serviços em Corumbá, uma nota, para nós muito importante neste momento, é que ele menciona o hospital de Três Lagoas, significando a atenção que Dom Lustosa deu a saúde de seus diocesanos em Corumbá. Na ocasião, Dom Lustosa comunica que não fez uso dos dividendos do hospital que caberiam à diocese, com isso, nota-se que seu esforço não era apenas em buscar recursos fora, mas sentia ele mesmo a manutenção do hospital, isto tudo porque a saúde das pessoas lhe era muito importante, fazia parte mesmo do Evangelho. Diz Dom Lustosa ao núncio, “o hospital de Três Lagoas funciona regularmente e até agora não faltam os recursos para a sua manutenção. Não me utilizei, porém, em favor da Mitra, de porcentagem alguma sobre as entradas do mesmo” (Dom Lustosa, 1931). 

O telegrama a Getúlio Vargas é de maio de 1931, e a carta ao núncio é de novembro do mesmo ano, indicando que a solicitação feita ao governo da época obteve sucesso, e pode o hospital manter-se e prosseguir cuidando da saúde da população, especialmente da malária.

Os trabalhos em Belém e em Fortaleza no âmbito da saúde, desenvolvidos por Dom Antônio de Almeida Lustosa são também de grande relevância, contudo, evitando alongar-se mais no texto, partilharemos em outra ocasião. Acredito que nos fica uma participação indissociável entre o Evangelho e a saúde das pessoas. Dom Lustosa entendeu bem isso, não é possível uma profissão de fé verdadeira se for alheia ao sofrimento humano, especialmente ao sofrimento dos mais pobres. Nesse momento de pandemia, a Igreja, com o Papa Francisco e os nossos bispos, têm tido sensibilidade semelhante, cuidar das pessoas, preservá-las de enfermidades é uma boa notícia, é Evangelho.

Rezemos pela causa de Beatificação e Canonização de Dom Antônio de Almeida Lustosa, ele que tanto zelou pela saúde dos irmãos e irmãs, possa o seu testemunho nos ajudar a ter a saúde como uma boa notícia.

Pe. Abimael F. do Nascimento, msc.
Membro da Comissão pela Causa de Beatificação e Canonização de
Dom Antônio de Almeida Lustosa.

1 Comentário »

1 Comentário »

  • Marcus Vinícius Araújo disse:

    Retrato real e pragmático do múnus episcopal do Servo de Deus Domingos Antônio de Almeida Lustosa muito bem revelado pelo autor, padre Abimael, MSC, que conseguiu identificar com clareza a prioridade que, por onde passou, foi concedida à saúde, principalmente em benefício dos maiores isso necessitados.

    Padre Abimael, em seu ilustrativo artigo, faz justiça e reverência à relação entre a saúde e a sensibilidade do Servo de Deus em defesa das necessidades das regiões onde prestou serviço à Igreja, com o objetivo de suprir as deficiências hospitalares no atendimento da saúde das pessoas há quase um século atrás, quando as jurisdições arquidiocese nas eram tão vastas que chegavam a cobrir territórios que hoje são estados brasileiros.

    Os cumprimentos ao autor, padre Abimael, pelo histórico e documental artigo.


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