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Editorial – outubro 2019: “A Igreja em Sínodo”

Nestes dias 6 a 27 de outubro reúnem-se com o Santo Padre o Papa Francisco em Roma, bispos da Região Pan-amazônica com outros convidados, sacerdotes, religiosos, leigos e “amigos da casa comum”. A Igreja em sínodo, isto é “fazendo unida o Caminho”, busca discernimento, sob a ação do Espírito Santo para o futuro da evangelização na Amazônia (realidade geográfica e humana que abrange diversos países da América do Sul).

Retomamos do Papa Francisco suas palavras na abertura dos trabalhos da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-amazônica sobre o tema: “Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” (7 de outubro de 2019): “O Sínodo para a Amazônia, podemos dizer que tem quatro dimensões: a dimensão pastoral, a dimensão cultural, a dimensão social e a dimensão ecológica. A primeira, a dimensão pastoral, é aquela que é essencial, aquela que compreende tudo. Nós a afrontamos com um coração cristão e olhamos para a realidade da Amazônia com olhos de discípulos para compreendê-la e interpretá-la com olhos de discípulos, porque não existe hermenêutica neutra, hermenêutica assética, são sempre condicionadas de uma opção prévia, a nossa opção é aquela de discípulos. E também com olhos de missionários, porque o amor que o Espírito Santo colocou em nós nos impulsiona ao anúncio de Jesus Cristo; um anúncio — o sabemos todos — que não se confunde com proselitismo. Nós procuramos nos confrontar com a realidade da Amazônia com este coração pastoral, com olhos de discípulos e de missionários, porque aquilo que nos apressa é o anúncio do Senhor.”

E por isto mesmo, se coloca diante do homem que vive na Amazônia, com uma precisa atitude: “E além disso nos aproximamos dos povos amazônicos em ponta de pé, respeitando a sua história, as suas culturas, e seu estilo de bom viver no sentido etimológico da palavra, não no sentido social que muitas vezes atribuímos a eles, porque os povos têm uma própria identidade, todos os povos têm uma sua sabedoria, uma consciência de si, os povos têm um modo de sentir, um modo de ver a realidade, uma história, uma ermenêutica e tendem a ser protagonistas de sua história com estas coisas, com estas qualidades. E nós nos aproximamos estranhos a colonizações ideológicas que destroem ou reduzem as especificidades dos povos. As colonizações ideológicas são hoje muito difusas. E nos aproximamos sem  ânsia imprenditorial de propor a eles programos pré confeccionados, de “disciplinar” os povos amazônicos, de disciplinar a sua história, a sua cultura; ou seja, aquela ânsia de “domesticar” os povos originários. Quando a Igreja se esqueceu disto, isto é de se aproximar de um povo, não se inculturou; e chegou de fato a desprezar certos povos. E quantos erros dos quais hoje nos arrependemos.

Não vimos aqui para inventar programas de desenvolvimento social ou de guarda de culturas, de tipo de museu, ou de ações pastorais com o estilo não contemplativo com o qual se estão levando em frente as ações de sinal oposto: desflorestamento, uniformação, desfrutamento. Fazem também programas que não respeitam a poesia – me permito dize-lo -, a realidade dos povos que é soberana. Devemos também nos guardar da mundanidade no modo de exigir pontos de vista, mudanças na organização. A mundanidade se infiltra sempre e nos faz nos distanciar da poesia dos povos.” 

E diante disto Papa Francisco recorda a missão da Igreja e seu modo de agir, conforme a ação divina que nela se realiza: “Vimos para contemplar, para compreender, para servir os povos. E o fazemos percorrendo um caminho sinodal, o fazemos em sínodo, não em mesas redondas, não em conferências e ulteriores discussões: nós o fazemos em sínodo, porque um sínodo não é um parlamento, não é um parlatório, não é demostrar que há mais poder nas mídia e que não mais poder na rede, para impor qualquer idéia ou qualquer plano. Isto configuraria uma Igreja congregacionista, se entendemos procuramos por meio de sondagem o que tem maioria. Ou uma Igreja sensacionalista longe, distante da nossa Santa Mãe Igreja católica, ou como amava dizer  Santo Inácio: “a nossa Santa Mãe Igreja hierárquica”. Sínodo é caminhar junto sob a inspiração e guia do Espírito Santo. O Espírito Santo é o autor principal do sínodo. Por favor não o expulsemos desta sala. Foram feitas consultas, discutiu-se nas Conferências episcopais, no Conselho pré-sinodal, foi elaborado um Instrumentum Labores que, como sabeis, é um texto-mártir, destinado a ser destruído, porque é o ponto de partida para aquilo que o Espírito fará em nós. E agora caminhamos sob a guia do Espírito Santo. Agora devemos consentir ao Espírito Santo que se exprima nesta assembleia, que se exprima entre nós, que se exprima conosco, através de nós, que se exprima “apesar” de nós, não obstante as nossas resistências, que é normal que existam, porque a vida do cristão é assim.

Portanto, qual será o nosso trabalho aqui, para assegurar que esta presença do Espírito Santo seja fecunda? Antes de tudo, rezar. Irmãos e irmãs, eu vos peço que rezem muito. Refletir, dialogar, escutar com humildade, sabendo que eu não sou tudo. E falar com coragem, com parresía,  também se me envergonharei fazê-lo, direi o que sinto, discernirei, e tudo isto aqui dentro, guardando a fraternidade que deve existir aqui dentro, para favorecer esta atitude de reflexão, oração, discernimento, de escuta com humildade, e falar com coragem. …

Enfim, estar no sínodo significa encorajar-se para entrar em um processo. Não é ocupar um espaço dentro da sala. Entrar em um processo. E os processos eclesiais têm uma necessidade: devem ser protegidos, cuidados como uma criança, acompanhados no início, cuidados com delicadeza. Têm necessidade do calor da comunidade; têm necessidade do calor da Mãe Igreja. É assim que um processo eclesial cresce. Por isto a atitude de respeito, de cuidar do clima fraterno, a atmosfera de intimidade é importante. Trata-se de não se colocar tudo fora, assim como vem.  … mas de delicadeza e prudência na comunicação que faremos …”

Estas palavras dão o sentido de tudo o que se faz no processo sinodal que deverá colher das orientações do próprio Espírito de Deus que age em sua Igreja as luzes e forças para novos caminhos da ação evangelizadora da Igreja na Amazônia e de uma proposta de ecologia que seja integral, humana, iluminada pelo Evangelho.

Mais ainda, nesta experiência eclesial de sínodo, o caminhar juntos, grande luz se apresenta para tantos outros níveis da vida e ação eclesial em todo o mundo. Como caminhar juntos, em sinodalidade, também nas Conferências Episcopais, nas Igrejas particulares, nas paróquias e comunidades eclesiais, em todos os âmbitos da convivência eclesial, que para serem verdadeiros, sempre deverão ser guiados na universal comunhão da Igreja, pela unidade que vem da presença do Espírito Santo, o Amor de Deus, que age em seu povo.

Rezemos e nos unamos à Igreja em sínodo. Peçamos a presença atuante do Espírito do Senhor, prometido à Sua Igreja: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”. (Mt 28,20)

Esperamos colher os frutos da presença do Espírito que fala à Igreja: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” (Apc 2,7.11.17.29;  3,6.13.22.)

+ José Antonio Aparecido Tosi Marques
Arcebispo Metropolitano de Fortaleza

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