A paróquia ainda tem sentido? Pensando a Paróquia | Arquidiocese de Fortaleza
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A paróquia ainda tem sentido? Pensando a Paróquia

Quando iniciava a pensar neste breve texto, estava já a preocupação com o título, uma primeira intuição propunha: “a Paróquia ainda tem sentido?” – mas eu aprendi, nas aulas de redação no ensino médio, que não convém começar uma redação com uma interrogação; então me veio uma segunda intuição: “pensando a Paróquia”; daí que optei por conciliar, visto que as duas intuições me pareceram pertinentes.

A ideia de Paróquia que podemos tratar, para sermos fiéis ao nosso tempo, mas sempre inspirados pela Igreja Primitiva, é aquela que está presente desde o Concílio Vaticano II (1962-1965). Em vários números o Vaticano II trata do tema da Paróquia. O número 591 evidencia a unidade entre a célula eclesial, a Paróquia, e o ministério do Bispo, afirmando a identificação entre o pastor local (Pároco) e o pastor da Igreja Diocesana (Bispo), numa comunhão em várias dimensões, expressam a riqueza da Igreja Universal, de modo que, entre as diversas comunidades de fiéis, sobressaem, nessa comunhão, a comunidade Paroquial.

Por ser visibilidade de toda a Igreja, fazendo o Pároco as vezes do Bispo (SC, n. 42), a Paróquia, como defende o segundo Concílio Vaticano, é lugar da comunhão do Povo de Deus, e deve, o Pároco, empenhar-se, afim de que “haja esforço para que floresça o espírito de comunidade paroquial” (SC, n. 42). Indo um pouco mais adiante, reforça, nas menções a Paróquia, esse papel de comunhão, diz o número 1368 do Decreto Apostolicam Actuositatem,

A Paróquia apresenta um exemplo luminoso do apostolado comunitário, congregando num todo as diversas diferenças humanas, que encontra e inserindo-as na universalidade da Igreja. Habituem-se os leigos a trabalhar na Paróquia intimamente unidos aos seus sacerdotes […]. [e todos devem] empenhar-se, na medida de suas forças, em auxiliar todas as iniciativas apostólicas e missionárias da própria família cristã. (AA, n. 10)

O que podemos concluir do segundo Concílio Vaticano é a larga compreensão de que a Paróquia seja uma porção visível da unidade da Igreja, participando do múnus do Bispo diocesano, como sentinela da comunhão. De modo que as atividades eclesiais, dentro de uma Paróquia sejam todas elas, de congregações religiosas, movimentos supra paroquiais ou novas comunidades, inseridas na vida paroquial, para não causar prejuízo à comunhão eclesial.

Dando um salto no tempo, e chegando mais próximos de nós, sabendo que a recepção do Vaticano II na América Latina identificou a Paróquia com a organização em comunidades e com grupos de aprofundamento da fé, com implicações na transformação social, especialmente nas conferências de Medellím (1968), Puebla ( 1979) e Santo Domingos(1992) e mais recentemente em 2007, acontece a Conferência de Aparecida. Neste Documento, a Paróquia é apresentada como que vivendo alguma natureza de crise, poderíamos dizer, de modo extremo, que chegou-se a pensar a ineficiência da Paróquia, pois o mundo se modernizou, a Paróquia que temos é de modelo ‘medieval’, então, se fazia necessário pensar um novo modelo de célula eclesial que atendesse a demanda contemporânea. Para tais questionamentos os bispos em Aparecida elencavam o crescimento das cidades, a distância entre as pessoas, com o crescente individualismo, o surgimento de novos modelos eclesiais ao longo das décadas (Cf. DAp, n. 128), como as ceb´s, rincões da RCC e as Novas Comunidades ( de cunho predominantemente pentecostal), tudo isto colocaria a Paróquia em questão. No entanto, ao invés de “abolir” a Paróquia, Aparecida optou por sonhar com uma nova Paróquia. Diz o Documento de Aparecida que a “comunidade é essencial à vocação cristã” (DAp, n. 164), mas não comunidades isoladas e sim integradas na Igreja Particular e, consequentemente, na porção paroquial, onde, por própria natureza, como está no Vaticano II, participa intimamente do múnus episcopal. O n. 169 chama a atenção para uma pastoral orgânica na Igreja Particular, razão pela qual todos os entes eclesiais se esforçam para marcar a unidade do povo do Deus. No n. 170, o Documento de Aparecida volta-se para o tema paroquial, incentivando a renovação paroquial, mas frisando a relevância da Paróquia em meio ao universo de mudanças que o mundo vive,

Entre as comunidades eclesiais, nas quais vivem e se formam os discípulos e missionários de Jesus Cristo, sobressaem as Paróquias. São Células vivas da Igreja e o lugar privilegiado no qual a maioria dos fiéis tem uma experiência concreta de Cristo e a comunhão eclesial. São chamadas a ser casas e escolas de comunhão.

DAp, n.170

Aparecida reforça insistentemente a necessidade de renovação paroquial (n.170-174), mas sem abrir mão de duas características indeléveis à Paróquia: células vivas da Igreja e lugar de comunhão eclesial. Ademais, o Documento acentua a dimensão social da Paróquia, que tem por natureza o compromisso com os mais empobrecidos, com aqueles que foram esquecidos pelos avanços sociais, de modo que a comunidade paroquial seja lugar de compromisso social pela caridade, pela conscientização e pelo atendimento espiritual a todas as pessoas. Deste modo, a ação social de grupos eclesiais exteriores à Paróquia não pode prescindir de uma sensata e verdadeira comunhão na ação caritativa, sob o risco de se tornarem ações de ONG´s e não ações eclesiais. Às vezes, pode haver a aventura, o heroísmo, que dispondo de recursos, venha a se pensar a caridade como meio de ruptura eclesial, como se os fins justificassem os meios, contudo, para a Igreja, o bem feito bem, é feito em comunhão.

Em uma aplicação do Documento de Aparecida, A Conferência Nacional dos Bispo do Brasil (CNBB), quis refletir sobre os rumos da Paróquia, donde nasce o Documento 100, Comunidade de comunidades: uma nova Paróquia. Esse Documento desejou pontuar caminhos para a renovação paroquial, entendo-a como uma rede de comunidades que abrigaria as várias expressões eclesiais. Mais uma vez vemos que no fundo, as propostas desde o Vaticano II não são por uma “abolição”, mas renovação, reestruturação, conservando sempre a Paróquia como essa célula visível da Igreja, que mais se aproximar das realidades humanas. Neste Documento, diante da crescente inclinação individualista e de fechamento em pequenos ou grandes grupos, diz que “na fé cristã, não há lugar, para grupos fechados em forma de sociedade ou clube” (CNBB Doc. 100, n. 35), sejam organizados em Paróquias ou comunidades, não participa da natureza da Igreja esse exclusivismo ou fechamento.

O Documento aposta na noção de extraterritorialidade, mas sem perder a territorialidade, na busca de um equilíbrio com a crescente mobilidade urbana, que facilita o deslocamento dos fiéis que vivem em uma determinada área paroquial, mas frequentam outra área, a transterritorialidade é uma nova configuração paroquial. Mas citando o Conselho Episcopal Latino-Americano, o Documento volta à natureza indelével da Paróquia, como lugar de comunhão (CNBB Doc 100, n. 235) e faz constar uma fala do Papa Francisco como apelo à essa comunhão,

A esse respeito, o Papa Francisco exorta as comunidades, movimentos e associações dizendo que ‘é muito salutar que não percam o contato com esta realidade muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja Particular. Esta integração evitará que fiquem só com uma parte do Evangelho e da Igreja ou que se transformem em nômades sem raízes. (CNBB Doc. 100, n. 236)

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, 2019-2023, faz uma análise de conjuntura no Brasil e, particularmente sobre a Igreja, no n. 81 lembra o testemunho de comunhão como algo caro à credibilidade da Igreja e no n. 87 evoca o ministério do sacerdote com a missão de promover essa comunhão, não de forma falaciosa, como teatralidade, mas verdadeira adesão à pastoral eclesial na Diocese e na vida paroquial. Portanto, a Igreja vista como esta casa com pilares, é por excelência a comunidade eclesial toda, mas visibilizada nas diversas manifestações da Igreja, integradas em comunhão, especialmente na vida paroquial.

A pergunta que pode nos ocupar é se, de fato, a Paróquia ainda tem sentido. O que se pode ver ao longo do texto é que o primeiro e inegociável sentido da Paróquia é a comunhão do povo de fiéis, seja entorno da Eucaristia, da Palavra, da instrução da fé a na caridade. A Paróquia é chamada a ser essa porção visível do Povo de Deus em meio a sociedade, onde, como sinal luminoso, atrai pelo serviço pastoral pessoas para Deus. Na Paróquia é imprescindível, especialmente para o serviço da caridade, o estabelecimento de parcerias com a sociedade civil organizada, afim de ações de assistência, atenção e promoção social dos mais vulneráveis; a Paróquia pela Iniciação Cristã, é lugar de formar discípulos-missionários, não segundo o pensamento dos homens, mas segundo o projeto de Deus. Assim, cada entidade eclesial, presente em uma Paróquia, não pode expor-se ao heroísmo de negá-la, pois nega a própria natureza da Igreja, que é a comunhão dos fiéis, e é lógico que do ponto de vista prático o ganho de tal negação é a cisão do Corpo de Cristo, o mesmo seria, se na Paróquia, o Pároco se esquecesse que faz parte de uma Diocese e da comunhão eclesial com seu Bispo.

A Paróquia ainda tem sentido? – Sim, tem sentido e é necessária, para acolher numa casa comum as famílias, as crianças, aos jovens, aos idosos, aos abastados, aos necessitados, todo o povo de Deus. Neste tempo de pandemia é visível o desejo dos fiéis em quererem retornar às suas atividades paroquiais, é também salutar o esforço dos padres, por diversos meios e por redes sociais conservarem a presença junto aos fiéis. Uma Paróquia renovada é uma Paróquia acolhedora e que transfigura as relações humanas segundo o Coração de Deus.

Pe. Abimael Francisco do Nascimento, msc
Pároco da Paróquia de Nossa Senhora do Sagrado Coração- Aerolândia-Fortaleza.

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  • Nós fiéis necessitamos desta convivência onde todos podem congregar-se com Deus, e os irmãos. E juntos louvarmos, glorificarmos e bendizermos a Deus. E recebermos o Corpo e Sangue de Cristo na Igreja.
    Que sejamos abençoados com novas oportunidades de recebermos a Comunhão presencialmente na Igreja em nome de Jesus Cristo amado.

  • Raimundo Nonato Martins diz:

    A paróquia para mim tem sentido sim, foi através dos serviços pastorais que eu fui atraído para Deus, através da Eucaristia, a palavra, o Santíssimo Exposto, as formações Bíblicas, as formações no desenvolvimento da espiritualidade, um sacerdote bastante esforçado, as leituras e as homilias, fizeram de mim um novo Homem, estou sentido muita saudades da minha paróquia, a Santa Missa, a Eucaristia, a sala do Santíssimo, e o Santíssimo Exposto, dos nossos sacerdotes, os irmãos de caminhada e a presença da nossa comunidade, Saudades.


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