Ó noite bem-aventurada - Vigília Pascal - Arquidiocese de Fortaleza
Atualidades

Ó noite bem-aventurada – Vigília Pascal

“Só tu, noite bem-aventurada, soubeste a hora
em que o Cristo da morte ressurgia;
e é por isso que de ti foi escrito:
A noite será luz para meu dia”. (Exultet)

Quarenta dias de penitência, jejuns, orações, esmolas… Quarenta dias de preparação para celebrar o fundamento de toda a nossa fé, o mistério inefável da páscoa: Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação (cf. 1Cor 15,3-4; Rm 4,24). Se é difícil contemplá-lo, quanto mais falar ou escrever sobre ele. O coração estremece, a mente se desconcerta, as mãos tremem.

A melhor forma de entender tal mistério é participando da grande e solene celebração da vigília pascal, mãe de todas as vigílias. Portanto, pedirei que você me acompanhe “espiritualmente” nela. Use sua imaginação e deixe-se conduzir pelo Espírito.

Estamos fora da Igreja, é noite, formamos um grupo compacto de irmãos na fé que dão espaço para o sacerdote iniciar a celebração.

Nosso coração estremece diante da beleza dos símbolos e da profundidade do mistério que celebramos.

O fogo abençoado lembra que Cristo é a luz do mundo que deve abrasar e iluminar nosso coração. O círio, preparado, abençoado e aceso a partir do fogo novo, é símbolo de Cristo Ressuscitado. Em procissão entramos na Igreja escura, iluminada unicamente pela luz do círio, cantando: “Eis a luz de Cristo – Demos graças a Deus”. Do círio acendemos nossas velas e na terceira aclamação todas as luzes da Igreja são acesas. A luz de Cristo passa a refulgir nos nossos corações e em toda a Igreja.

O que significa tal procissão?

Esta procissão mostra que “somos o povo de Deus, nascido da Páscoa: peregrinos, seguimos Cristo Ressuscitado (…) através do deserto da vida em direção à pátria celeste”[1].

Então de pé, segurando a vela acesa pela chama do círio, ouvimos o canto da solene proclamação da Páscoa ressoar com uma tonalidade que somente o Espírito pode dar:

“Ó noite em que Jesus rompeu o inferno,
ao ressurgir da morte vencedor:
de que nos valeria ter nascido,
se não nos resgatasse em seu amor?

Ó pecado de Adão indispensável,
Pois o Cristo o dissolve em seu amor;
Ó culpa tão feliz que há merecido
A graça de um tão grande Redentor!
(Exultet)

Apague sua vela e se sente para ouvir atentamente as nove leituras da liturgia da Palavra. Através delas você vai percebendo como Deus preparou este grande mistério, como Ele o realizou e o que significa para nós. Depois de cada leitura entoa-se um salmo e faz-se uma oração, é a Igreja que responde ao apelo do seu Senhor com a própria Palavra e com a oração.

Após a sétima leitura, a última do Antigo Testamento, nos levantamos e com júbilo entoamos aquele canto que foi omitido durante quarenta dias: “GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS”. Para salientar ainda mais nossa alegria da “passagem” da morte para a vida e do Antigo para o Novo Testamento tocam-se sinos neste momento.

Sentados ouvimos uma leitura do Novo Testamento, um Salmo e a solene aclamação ao Evangelho, com o canto do aleluia, também calado por quarenta dias. ALELUIA é a palavra que melhor expressa a alegria e o louvor a Deus pela Ressurreição de Cristo. Finalmente podemos cantá-la!

De pé, ouvimos a proclamação do Santo Evangelho e sentados ouvimos a grande homilia.

“Caros filhos, para entendermos o mistério que celebramos, precisamos conhecer suas raízes históricas e religiosas que se encontram no Antigo Testamento.

No Antigo Testamento existem dois significados para a Páscoa. Em Ex12, 26-27, ela é apresentada como a “passagem de Deus”: “é o sacrifício da Páscoa (Pesach) para o Senhor, que passou (Pâsâchti) diante das casas dos filhos de Israel no Egito, quando golpeou o Egito e libertou nossas casas”. Deus “passa”, “salta”, “poupa” as casas dos israelitas que estavam marcados com o sangue do cordeiro imolado, mas não poupa os primogênitos dos egípcios. Esta explicação da Páscoa tem como protagonista o próprio Deus.

No tempo de Jesus esta é a visão que predomina na Palestina. A Páscoa apresenta um forte aspecto ritual e sacrifical. Consiste numa liturgia concreta, que tem como momentos essenciais a imolação do cordeiro no templo, na tarde de 14 de Nissan, e a sua consumação por família no decurso de uma ceia, na noite sucessiva.

Em Dt 16, temos a outra maneira de ver esta festa judaica: a atenção é voltada para a saída do Egito que é vista como a passagem da escravidão para a liberdade. O protagonista passa a ser o homem.

No tempo de Jesus, esta interpretação era predominante no judaísmo da Diáspora. O evento histórico central comemorado era a passagem do povo através do Mar Vermelho. Seu significado alegórico era o da passagem do homem da escravidão à liberdade, do vício à virtude.

Esta dúplice e complementar visão da Páscoa, também influenciou o cristianismo. Alguns padres da Igreja apresentam a Páscoa cristã como a grande imolação de Cristo, a sua Paixão. A morte de Cristo, porém, é vista sobretudo como força de salvação, “morte da morte”. Como dizia Melitão de Sardes: “Graças ao Seu Espírito (de Jesus) que não podia morrer, matou a morte que matava o homem” (Melitão, Sulla Pasqua, 66). Outra tradição cristã viu a páscoa sobretudo como passagem do vício à virtude, dando continuidade à teologia judaica da Diáspora. Nesta perspectiva, toda a vida do cristão e da Igreja é vista como um êxodo, que começa com a fé e termina com a saída deste mundo. A verdadeira páscoa será aquela que celebraremos sem símbolos nem figuras, na pátria beata.

Esta dúplice e complementar visão da Páscoa cristã caminhavam de forma paralelas e, às vezes, até concorrente. Foi preciso a intuição de Sto Agostinho para fazer uma síntese que explicasse melhor o rico significado deste mistério. Ele parte do cap. 13 do Evangelho de João que diz: “Antes da Páscoa, sabendo Jesus que a sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai…” (v. 1). Esta passagem une de forma íntima Paixão e Ressurreição e mostra que é através da Paixão que Cristo chegou à glória da Ressurreição. A Páscoa cristã é uma passagem através da Paixão.

“Paixão e Ressurreição do Senhor: eis a verdadeira Páscoa” (Agostinho, De Cat. Rud. 23, 41; PL 40, 340).

Em Jesus, os dois protagonistas da Páscoa, Deus e o homem, se tornam um só, porque nele a humanidade e a divindade são uma mesma pessoa, autor e destinatário da Salvação se encontram. Mas Jesus não “passa” só. Nós também que somos seu corpo místico, passamos juntamente com nossa cabeça. A nossa passagem se dá na fé (de onde obtemos o perdão dos pecados), na esperança da vida eterna e no sacramento do nosso Batismo. Mas devemos passar também na realidade da vida quotidiana, imitando a sua vida e sobretudo o seu amor. Se não passamos a Deus que não passa, passaremos com o mundo que passa. Páscoa é passar àquilo que não passa.

Deus nos conceda cumprir esta passagem ao fim da qual veremos a sua Face e nos saciaremos da sua Presença para sempre”[2].

Finda a homilia, o sacerdote e os ministros se dirigem ao Batistério para dar início a liturgia batismal, também chamada liturgia do “sacramento pascal”, “sacramento da paixão de Cristo”, “Sacramento da ressurreição” (cf. Bergamini, p. 367). “A Fonte Batismal é o lugar onde a páscoa de Cristo se fez nossa no sinal da água e na profissão da fé Trinitária. A Fonte (…) é ao mesmo tempo túmulo do pecado e ventre materno de onde nasce a vida. ‘No mesmo instante, morreste e a mesma água santa tornou-se para vós sepulcro e mãe’”[3].

Na Igreja Primitiva, os catecúmenos que tinham se preparado de forma mais intensa, nos últimos quarenta dias, por meio da oração, penitência e escrutínios, recebiam o batismo nesta noite tornando-se assim filho de Deus como nós. A Igreja retornou a esta antiga tradição e hoje teremos dois adultos que serão “sepultados com Cristo para ressuscitar com Ele” (cf. Rm 6,3-4).

Rezemos a ladainha. Não, não fique de joelho, estamos na páscoa, Cristo Ressuscitou, “levantou-se”, “ergueu-se”. Para refletir esta realidade e a de que um dia ressuscitaremos também, ficamos de pé. O sacerdote agora abençoa água.

Veja, ele agora mergulha o Círio na água e diz: “Nós pedimos, ó Pai, que por vosso Filho desça sobre toda esta água a força do Espírito Santo. E todos os que, pelo batismo, forem sepultados na morte com Cristo, ressuscitem com ele para a vida”. Isso mostra que a graça do Batismo não brota da água enquanto elemento material, mas do Espírito Santo que a santifica[4].

Agora cada catecúmeno renuncia ao demônio, faz a profissão de fé e é batizado. Fiquemos em silêncio contemplando o mistério pascal que se realiza neles.

Agora de pé, com as velas acesas, renovemos as promessas do nosso Batismo.

Continua a missa normalmente com a liturgia eucarística. Como você já a conhece bem lhe deixarei só. Contemple a beleza dos símbolos e do mistério e preste atenção no prefácio:

“Na verdade, é justo e necessário,
é nosso dever e salvação dar-vos graças,
sempre e em todo o lugar,
mas sobretudo nesta noite em que Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.
Ele é o verdadeiro Cordeiro, que tira o pecado do mundo.
Morrendo, destruiu a morte, e,
ressurgindo, deu-nos a vida.”

 

Escrito por Pe. Emilio Cesar Porto Cabral

[1] A. Bergamini, Cristo, festa da Igreja. O ano Litúrgico, (Paulinas: São Paulo 1994), p. 358.
[2] Esta homilia foi uma adaptação e tradução realizada por mim de um texto de Frei Raniero Cantalamessa: I Misteri di Crsito nella vita della Chiesa (Ancora: Milano 19922), p. 395-408.
[3] Cf. A. Bergamini, Cristo, festa da Igreja. O ano Litúrgico, (Paulinas: São Paulo 1994), p. 368.
[4] Cf. A. Bergamini, Cristo, festa da Igreja. O ano Litúrgico, (Paulinas: São Paulo 1994), p. 368.

Seja o primeiro a comentar »

Seja o primeiro a comentar »


Deixe seu Comentário

Nome (necessário)

E-mail (não será publicado) (necessário)

Website

Atualidades

Dom José Antonio inaugura Centro de Pastoral na Paróquia Jesus, Maria, José no Antônio Bezerra

Clero de Fortaleza realiza Semana de Formação online

Jubileu de 75 anos da Paróquia Jesus, Maria, José no bairro Antônio Bezerra, Fortaleza

Catedral Metropolitana de Fortaleza celebra 42 anos de inauguração

Programação das Missas de Natal e Ano Novo em algumas paróquias da Arquidiocese de Fortaleza

Paróquia São José realiza a Live Natal da Esperança

Santuário de Canindé divulga programação natalina

Pe. Ermanno Allegri: pastor missionário, celebra 50 anos de Ordenação Presbiteral

12ª Festa da Vida: cuidar e celebrar a vida: desafio e compromisso

Dom Rosalvo toma posse na Diocese de Itapipoca

Há 150 anos, Santa Luzia ilumina Baturité

Paroquianos de São Gonçalo celebram novenário ao Padroeiro

Membros da Pascom são apresentados solenemente na Matriz do Pirambu

Nota de repúdio da Pastoral Carcerária contra agressões sofridas durante manifestação do Dia da Consciência Negra

Na Solenidade de Cristo Rei: novos presbíteros para a Igreja do Senhor

Testemunhas da Eucaristia: tema da 82ª Semana Eucarística

Cordel celebrativo: 105 anos da Arquidiocese de Fortaleza

Horários de missas no Dia de Finados

Legado de Irmã Clemência é retratado em Seminário Internacional

Semana de Formação do Clero de Fortaleza aprofunda temática da conversão pastoral paroquial

Aniversário do segundo ano do Pacto das Catacumbas pela Casa Comum

Bispos do Ceará se reúnem para aprofundar e encaminhar as atividades pastorais do Regional

Por uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão

Conferência de Dom José Antonio na abertura da XIX Semana Teológica na FCF