
Já estamos no tempo santo da Quaresma, esse itinerário de quarenta dias que prepara o coração da Igreja para a Páscoa do Senhor. É um tempo de jejum, oração e caridade, no qual somos chamados a renovar nossa fé e revigorar o seguimento de Jesus Cristo. À luz desse caminho espiritual, contemplar a experiência quaresmal de São Francisco de Assis é redescobrir a beleza de uma conversão vivida com radicalidade e alegria.
O significado dos quarenta dias
Na Sagrada Escritura, o número quarenta está profundamente ligado à experiência de purificação, provação e encontro com Deus. Moisés permaneceu quarenta dias no Sinai (cf. Ex 24,12-18); Golias desafiou Israel durante quarenta dias até ser vencido por Davi (cf. 1Sm 17,16); o profeta Elias caminhou quarenta dias até o Horeb (cf. 1Rs 19,8); Jonas anunciou penitência a Nínive; o próprio Jesus jejuou quarenta dias no deserto antes de iniciar sua vida pública (cf. Mc 1,13) e, após a Ressurreição, permaneceu quarenta dias instruindo os discípulos.
É nessa perspectiva que a Igreja estabelece, em sua liturgia anual, o tempo da Quaresma: um período favorável para dizer “não” aos excessos, fortalecer a fé e antecipar, já aqui na terra, os sabores celestiais do Pão do Ressuscitado.
A “Quaresma das Quaresmas” no Lago Trasimeno
Entre os muitos episódios da vida franciscana, destaca-se aquele narrado nos Fioretti (cap. 7), quando São Francisco decidiu viver uma Quaresma de modo ainda mais intenso.
No início da Quaresma, pediu a um devoto que o conduzisse, durante a noite, a uma ilha deserta no Lago Trasimeno, na Itália. Levou consigo apenas dois pequenos pães. Desejava permanecer ali sozinho até a Quinta-feira Santa, em total recolhimento, longe dos olhares humanos.
Instalou-se num bosque espesso, onde as ameixeiras e arbustos formavam uma espécie de abrigo natural. Ali se dedicou inteiramente à oração e à contemplação das coisas celestes. Ao final da Quaresma, quando o amigo voltou para buscá-lo, encontrou ainda um pão e meio. Francisco havia consumido apenas metade de um pão durante quarenta dias — gesto que ele fazia não por exibicionismo, mas para unir-se espiritualmente ao jejum de Cristo.
Segundo a tradição, aquele pequeno alimento serviu-lhe para afastar qualquer tentação de vanglória. O essencial não era a privação em si, mas o amor que o movia.
Solidão que gera comunhão
Engana-se quem pensa que a solidão de Francisco era fuga do mundo. Ao contrário, quanto mais se retirava para o silêncio, mais se unia a Deus, a si mesmo e às criaturas.
Francisco escolhia o verde das florestas, o canto dos pássaros, a vastidão do horizonte. A natureza não era obstáculo, mas ponte para o Criador. Livre da cupidez e do desejo de possuir, podia amar tudo com liberdade. Nada lhe pertencia, mas tudo era dom.
Suas quaresmas eram marcadas por penitência, sim, mas também por alegria. O jejum não lhe roubava a paz; ao contrário, revestia seu espírito de leveza e gratidão. Na contemplação da criação, elevava todas as coisas a Cristo e, por Cristo, ao Pai.
Um convite para nossa Quaresma
A experiência quaresmal de São Francisco interpela também a nossa caminhada. Talvez não sejamos chamados a uma ilha deserta, mas certamente somos convidados a criar “ilhas interiores” de silêncio, onde Deus possa falar ao coração.
Jejuar não é apenas deixar de comer; é libertar-se do que pesa. Orar não é apenas recitar palavras; é abrir-se à presença. Fazer caridade não é apenas dar algo; é oferecer-se.
Neste tempo favorável, que possamos, à escola de São Francisco, reencontrar o entusiasmo na fé e no seguimento de Jesus. Que a simplicidade, o desapego e a alegria do Pobrezinho de Assis nos ensinem que a verdadeira riqueza está em viver tudo — até o sacrifício — por amor.
Assim, caminhando com Francisco, nossa Quaresma se tornará não um peso, mas um voo: do deserto à Ressurreição, da renúncia à plenitude da vida em Deus.