Especial Copa do Mundo: conheça o cearense que serviu no Haiti em missão de paz

Nesta sexta-feira, 19 de junho, Brasil e Haiti se enfrentam pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. Para muitos torcedores, será apenas mais uma partida do Mundial. Para o cearense Antônio Marcos Gonçalves da Costa, no entanto, o duelo tem um significado especial. Natural de Juazeiro do Norte, consagrado da Comunidade Católica Shalom e segundo-sargento aposentado do Exército Brasileiro, ele viveu durante sete meses em solo haitiano entre 2012 e 2013, integrando a Missão de Paz das Nações Unidas no país.

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Antônio Marcos Gonçalves da Costa em missão no Haiti – Foto: Arquivo pessoal

A experiência permitiu que Antônio conhecesse de perto a realidade de um povo marcado pelas consequências do terremoto de 2010, pela pobreza e pelos desafios da reconstrução, mas também pela fé, pela acolhida e pela capacidade de resistir às adversidades. Mais de uma década depois, as lembranças permanecem vivas e ganham ainda mais significado às vésperas do encontro entre as duas seleções na maior competição do futebol do planeta.

Além das atividades militares, Antônio Marcos desempenhou uma importante missão evangelizadora junto aos soldados brasileiros e ao povo haitiano. A vivência em um cenário de sofrimento e esperança transformou sua forma de enxergar Deus, a missão e o valor da solidariedade. Nesta entrevista, ele compartilha memórias e aprendizados que continuam marcando sua vida.

Como surgiu a oportunidade de participar da Missão de Paz no Haiti e qual foi sua função durante a missão?

Diante da crise política, financeira e administrativa vivida pelo Haiti, o Exército Brasileiro foi chamado para integrar a Missão de Paz. Fui convocado por corresponder ao perfil necessário para a missão. Como consagrado da Comunidade Shalom, também discerni esse chamado junto à comunidade e parti voluntariamente em julho de 2012.

Minha função militar era dar suporte à manutenção das viaturas. Na dimensão espiritual, como ministro extraordinário da Sagrada Comunhão, eu auxiliava o capelão militar e o substituía quando necessário, contribuindo para a evangelização e a manutenção da fé dos militares em meio ao contexto de conflito.

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Foto: arquivo pessoal.

Qual foi sua primeira impressão ao chegar ao Haiti e conhecer a realidade do país?

Após um ano de preparação, eu já tinha consciência do que encontraríamos. Sabíamos que alguns militares e até três padres que haviam participado anteriormente da missão retornaram ao Brasil com sintomas de ansiedade, pânico e depressão devido às experiências vividas.

Ao chegar ao Haiti, chamou atenção o contraste entre a beleza natural da ilha, cercada pelas famosas praias do Caribe, e a dura realidade da população. Ainda eram visíveis as consequências do terremoto de 2010. Encontrei cidades em ruínas, uma população extremamente sofrida, marcada pela pobreza, pela fome e pela desigualdade social. Enquanto os pobres viviam em situação de miséria, os ricos eram verdadeiramente milionários.

Quais foram os maiores desafios que você enfrentou durante o período em que viveu no Haiti?

Um dos maiores desafios era o risco constante de sequestros e emboscadas, já que ainda existiam conflitos na região.

Mas o que mais me marcou foi presenciar o sofrimento da população. Muitas pessoas viviam em barracas deixadas por missões anteriores, enfrentando condições extremamente precárias. Até hoje ecoa em meus ouvidos o pedido que frequentemente escutávamos: “Bombagai manje”, que significa “boa pessoa, comida”. Era um clamor de quem precisava do básico para sobreviver.

Existe alguma história ou experiência marcante com o povo haitiano que você nunca esqueceu?

Tive muitas experiências marcantes. Como responsável pela segurança do capelão, padre Campos, pude visitar congregações missionárias e comunidades locais.

Também evangelizava os haitianos utilizando desenhos e meditações simples que facilitavam a compreensão do amor de Deus. Durante minha permanência no país, conduzi um Seminário de Vida no Espírito Santo e acompanhei a formação espiritual dos militares, atuando na catequese e no aconselhamento daqueles que enfrentavam crises emocionais.

Uma lembrança especial é que muitos haitianos tinham curiosidade em saber quem era aquele homem que desenhava “as coisas do céu” para falar de Deus. Percebia-se uma grande sede espiritual e um desejo sincero de experimentar o amor divino em meio a tantas dificuldades.

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Foto: arquivo pessoal.

Como era a rotina dos militares brasileiros na Missão de Paz?

A rotina era bastante intensa. Havia momentos dedicados ao treinamento físico, escoltas, transporte de água e alimentos, além de atividades ligadas à reconstrução da cidade.

Também reservávamos tempo para a vida espiritual, com missas, celebrações da Palavra, momentos de oração, aconselhamento e convivência. Existiam ainda períodos de descanso e lazer, quando era possível viajar para países vizinhos ou retornar temporariamente ao Brasil.

Permaneci sete meses na missão, um mês a mais do que a média habitual, devido às exigências da operação. Nesse período, também fui responsável pela guarda da capela e pela substituição do capelão em diversas celebrações.

De que forma essa experiência mudou sua visão sobre solidariedade, cultura e relações humanas?

A missão renovou profundamente meu amor a Deus e minha confiança em Sua Providência. Aprendi a valorizar ainda mais o pão de cada dia e a olhar com compaixão para aqueles que sofrem.

Meu coração se inflamou pelo espírito missionário.

Compreendi que somos chamados a sair das nossas próprias realidades para construir pontes e alcançar aqueles que aguardam uma manifestação concreta do amor de Deus.

Voltei ao Brasil com um novo olhar sobre as pessoas, sobre o tempo e sobre a própria vida. Passei a enxergar com mais gratidão a cidade onde moro, minha casa e tudo aquilo que muitas vezes consideramos comum.

Que mensagem você gostaria de deixar aos brasileiros sobre a importância da Missão de Paz no Haiti e sobre o povo haitiano?

A presença brasileira no Haiti foi muito importante. Foi uma oportunidade de aprendizado mútuo.

Aprendemos com a cultura e com a perseverança desse povo sofrido, mas também tivemos a oportunidade de compartilhar a alegria característica do povo brasileiro. Criamos laços tão fortes que os haitianos passaram a nos chamar de “Bombagai”, expressão que significa “bom amigo”.

O Haiti conquistou um lugar especial no coração de muitos brasileiros que participaram da missão. É um povo que não desiste diante das adversidades e que continua lutando diariamente por dias melhores.

Depois de morar no Haiti e criar laços com o povo haitiano, para quem ficará sua torcida no jogo entre Brasil e Haiti na Copa do Mundo?

Depois de todos os laços construídos com o povo haitiano, desejo que as duas seleções façam uma grande partida. Mas, sendo brasileiro, minha torcida continua sendo pela vitória do Brasil.

Acompanhe algumas imagens da missão:

Fotos: Arquivo pessoal.

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