No atual contexto das redes sociais, muita informação é transmitida com rapidez e fluidez tão intensas que nem sempre é possível analisar os discursos e refletir seriamente acerca dos pronunciamentos seja de um lado, seja de outro. É o perigo da superficialidade na reflexão que permeia o âmbito das ciências teológicas e políticas.
Um exemplo disso são os embates nos pronunciamentos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e do Papa Leão XIV: duas linguagens, duas preocupações, dois horizontes de eventos dispares. Para o “público” e para o povo católico, corre-se o sério perigo de interpretar os discursos unicamente a partir de um polo: ou o Papa está “se metendo na política”; ou o presidente está atentando contra a instituição católica… No entanto, devemos ter uma visão mais ampla sobre a atual conjuntura.
De maneira breve, foquemos nossa atenção em alguns pontos fundamentais. Em primeiro lugar, o magistério da Igreja tem um posicionamento social bem firmado, conhecido como Doutrina Social da Igreja (DSI). De fato, a vivência da fé implica sérias consequências sociais. A necessidade interna de vivência da fé traz consigo a necessidade externa de uma vivência moral conforme a fé, em outras palavras, uma consequência sociopolítica, tal como se pode ler nos recentes discursos do Papa Leão XIV em sua viagem à África, nos quais exorta o povo de cada localidade a colaborar com o bem comum, mas especialmente os “discípulos do Senhor têm o dever de o fazer segundo a lei da caridade”[1].
Desta feita, o Santo Padre não está fugindo de suas atribuições religiosas ao manifestar uma sincera preocupação com a situação presente. Sim, “ele [Papa Leão XVI] está tomando o devido cuidado em assuntos teológicos”[2] . Ademais, a posição da Igreja nunca foi próxima do pacifismo, em estrito senso, afinal não se pode falar de uma paz [submissa] diante de atrozes injustiças – isso seria uma submissão indevida, ou pior uma indiferença velada.
Claro que no Compêndio da DSI fica evidente que a Paz é fruto da justiça (cf. n. 494-495), doutrina subscrita por São João XXIII na encíclica Pacem in Terris. Assim, a doutrina católica, ao redor dos séculos, sempre defendeu a possibilidade de defesa diante de uma agressão[3]. Porém, essa não nos parece a preocupação imediata do Santo Padre; conquanto sua defesa da justiça entre os povos, suas colocações apontam à doutrina tomista[4] de que a paz verdadeira e plena é produzida diretamente pela caridade, a qual possui como outro fruto interior a misericórdia.
Ainda que a preocupação de Trump seja a de fornecer um discurso de legitimação das suas motivações para iniciar uma guerra[5], a preocupação de Leão XIV é a de um legítimo pastor: cuidar daqueles que serão atingidos na guerra, mesmo se essa, após ter terminado, tiver sido considerada uma “guerra justa”. Para usarmos a expressão de um dos maiores nomes na filosofia política acerca da guerra: “A guerra é o inferno mesmo quando as normas são respeitadas, mesmo quando somente soldados são mortos e quando civis são constantemente poupados[6]”.
Portanto, o âmbito de preocupação primária não é a de um simples discurso de legitimação, mas das vítimas reais da guerra – especialmente daqueles que são considerados quase exclusivamente como “efeitos colaterais”: civis, crianças, homens e mulheres que não têm relação alguma com os conflitos entre os estados. Ademais, a própria espiral de violência levanta um alerta global que parecem colocar entre parênteses as possibilidades imediatas de uma declaração de tal guerra como justa.
Ademais, um problema maior surge no seio desse embate: é possível falar de guerra justa diante de uma “quebra de braço” a nível nuclear? Esse dilema de guerra não é uma preocupação atual. O já citado Michael Walzer – que não é um autor católico – já demonstrava séria preocupação acerca do assunto[7]. O problema de uma dissuasão nuclear – cerne do argumento de Trump – é um problema tão novo, com desproporções de poder tão sérios, que parecem escapar a qualquer tipo de esquema já estabelecido nas convenções de guerras de qualquer período histórico. Pois o que está em xeque, volto a dizer, não é a simples legitimação de um discurso [católico/de fé] sobre outro [político/antiterrorista] … O que está em jogo é a própria sobrevivência da humanidade como a entendemos atualmente.
Portanto, o posicionamento que quer relegar a segundo plano a posição teológica em contraposição “aos reais problemas políticos” parece destituído de sentido e desprezar uma visão integral da realidade, enxergando-a na óptica dos meros “jogos políticos”. Ademais, mais alarmante ainda é a contraposição direta ao Santo Padre e ao Vaticano, uma vez que estes, para além de seu significado religioso, são umas das principais potências de conciliação política internacional na contemporaneidade – mesmo com países que mal têm representação católica.
Desta feita, vemos que o rugido do Leão não é um “grito interno dos muros da sacristia”, mas o de um verdadeiro “defensor e pai dos pobres, zeloso da justiça e dos direitos humanos, portador de esperança”[8].
Pe. Fco. Deusimar Andrade Albuquerque, padre do Clero da Arquidiocese de Fortaleza, professor de Filosofia Social e Política da Faculdade Católica de Fortaleza, Coordenador do Curso de Pós-graduação da mesma faculdade, organizador e autor do livro Doutrina Social da Igreja, em contexto. Mestre em Filosofia Social e Política na Universidade Federal do Ceará com ênfase nas doutrinas de Guerra Justa e os problemas das intervenções humanitárias e doutorando na mesma universidade.
Pedro Higor Sousa Guedes, seminarista da Arquidiocese de Fortaleza, Bacharel em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Ceará e Bacharelando em Filosofia pela Faculdade Católica de Fortaleza.
Lucas Olardi Tarocco, seminarista da Arquidiocese de Fortaleza, Bacharel em Engenharia de Produção Mecânica pela Universidade Federal do Ceará e Bacharel em Filosofia pela Faculdade Católica de Fortaleza.
Referências bibliográficas:
[1] LEÃO XIV. Viagem apostólica de sua santidade Leão XIV à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial: encontro com os bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados e consagradas, catequistas e demais agentes pastorais. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/speeches/2026/april/documents/20260420-angola-incontro-vescovi.html.
[2] Vide crítica do vice-presidente de Donald Trump, JD Vance. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/vice-dos-eua-diz-que-o-papa-deveria-ter-cuidado-ao-falar-de-teologia/
[3] Para entender melhor o que se configura como agressão, no contexto da política internacional, pode-se pesquisar o livro de Michael Walzer, Guerras Justas e Injustas, 2003, na segunda secção do seu livro, das páginas 83 a 200.
[4] “…[A] justiça produz a paz indiretamente, removendo-lhe o obstáculo. Mas a caridade a produz diretamente, porque ela é, por sua própria razão, causa da paz.” (STh. IIa-IIae, q. 29, a.4, ad. 3)
[5] Algo que na tradição filosófica acerca das teorias de guerra justa define-se como jus ad bellum.
[6] WALZER, Michael. Guerras Justas e Injustas: uma argumentação moral com exemplos históricos. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 50.
[7] Basta conferir o capítulo 17 da obra supracitada, das páginas 457 e seguintes.
[8] Como todo bispo é chamado a ser, conforme JOÃO PAULO II, Pastoris Gregis. Vaticano: Editora Vaticana, 2003, n. 67).