
A hagiologia, área do conhecimento dedicada ao estudo da vida, das obras e do culto dos santos, ocupa um lugar singular na tradição cristã e na construção da memória histórica e cultural das sociedades. Derivada do grego hagios (santo) e logos (estudo), essa disciplina vai além das narrativas religiosas, constituindo-se como fonte preciosa para a compreensão dos valores, das mentalidades e das expressões de fé que atravessam os séculos.
É nesse contexto de valorização e aprofundamento dos estudos hagiológicos que a Academia Brasileira de Hagiologia (ABH) realiza, no próximo dia 11 de fevereiro, às 19h, a Posse da nova Diretoria para o biênio 2026–2027. A solenidade acontecerá na Gruta Nossa Senhora de Lourdes, localizada na Avenida Santos Dumont, 55, Centro, em Fortaleza, e será presidida por Dom André Alves dos Santos, OSB. O momento marca, também, a comemoração dos 21 anos de instalação da entidade, consolidando sua trajetória no cenário acadêmico e cultural brasileiro.
Uma ciência nascida da fé e da memória
A hagiologia surgiu nos primeiros séculos do cristianismo, quando comunidades passaram a registrar a vida e o martírio de homens e mulheres considerados modelos de fé. Esses relatos, lidos em celebrações litúrgicas, tinham como objetivo fortalecer a identidade cristã e encorajar os fiéis, especialmente em tempos de perseguição.
Durante a Idade Média, a produção hagiográfica intensificou-se de forma significativa. Mosteiros, catedrais e centros religiosos tornaram-se polos de preservação e difusão dessas narrativas, que influenciaram profundamente a religiosidade popular, a cultura e a organização social do período.
Embora apresentem características próprias — como o destaque às virtudes cristãs, o relato de milagres e o uso de linguagem simbólica —, os textos hagiológicos são hoje objeto de leitura crítica, que busca distinguir elementos históricos de construções pedagógicas ou lendárias, sem perder de vista seu valor espiritual, cultural e social.
Fonte viva da história e da cultura
O culto aos santos deixou marcas profundas na história das sociedades. Festas populares, devoções regionais, nomes de cidades, tradições locais e até expressões linguísticas nasceram da veneração hagiológica. Muitos santos tornaram-se padroeiros de profissões, cidades, países e causas específicas, refletindo as esperanças, angústias e necessidades das comunidades ao longo do tempo.
Nesse sentido, a hagiologia revela-se uma chave fundamental para compreender não apenas a espiritualidade, mas também os processos sociais, as relações de poder e a formação cultural dos povos.
21 anos de compromisso com o saber
Fundada há 21 anos, a Academia Brasileira de Hagiologia consolidou-se como uma instituição dedicada à pesquisa, ao estudo e à divulgação da hagiologia no Brasil. Ao longo de sua trajetória, promoveu encontros acadêmicos, publicações, palestras e atividades culturais, dialogando com áreas como a teologia, a história, a antropologia e outras ciências humanas.
A posse da nova Diretoria representa, portanto, um momento simbólico de continuidade e renovação. Para Luciano Didimo, tesoureiro da instituição, o significado desse momento é profundo:
“A posse da nova Diretoria, no ano em que a Academia Brasileira de Hagiologia completa 21 anos, marca um momento de maturidade institucional e renovação. É a reafirmação do compromisso com o legado construído ao longo de mais de duas décadas e, ao mesmo tempo, a abertura de um novo ciclo voltado à atualização, ao diálogo interdisciplinar e ao fortalecimento da presença da Academia no cenário acadêmico e cultural brasileiro.”
A hagiologia no Brasil contemporâneo
Questionado sobre a contribuição da hagiologia para a compreensão da realidade brasileira atual, Didimo destaca seu papel interpretativo e formativo:
“A hagiologia contribui para a compreensão do Brasil contemporâneo ao iluminar personagens, narrativas e práticas que moldaram a história, a cultura e a espiritualidade do país. O estudo das vidas exemplares permite interpretar processos sociais, valores coletivos e expressões de fé, sobretudo no âmbito popular, além de dialogar com áreas como a história, a literatura, a antropologia e a teologia.”
Perspectivas para o novo biênio
A nova Diretoria assume com projetos ambiciosos e voltados ao fortalecimento do campo hagiológico no país. Entre as prioridades para o biênio 2026–2027, Luciano Didimo ressalta:
“Entre as prioridades da nova Diretoria estão o incentivo à pesquisa e à produção acadêmica, a ampliação de parcerias institucionais e a formação de novos pesquisadores. Destacam-se, ainda, o lançamento de um novo número da revista da Academia e a realização do IV Congresso Brasileiro de Hagiologia, em vista do êxito das edições anteriores, além do fortalecimento da presença digital e da valorização da hagiologia brasileira em suas dimensões históricas, culturais e espirituais.”
A solenidade de posse da nova Diretoria da Academia Brasileira de Hagiologia, portanto, não é apenas um ato administrativo, mas um marco de celebração, memória e esperança, reafirmando o compromisso da instituição com a preservação da herança religiosa, a produção de conhecimento e o diálogo com a sociedade contemporânea.