Magnifica Humanitas um novo desafio de fronteira na Igreja
Neste 25 de maio, data em que celebramos a Bem-aventurada Virgem Maria Mãe da Igreja, o Papa Leão XIV lançou a sua primeira Carta Encíclica chamada Magnifica Humanitas –MH (Magnífica Humanidade em português). O grande desafio está nas fortes mudanças tecnológicas recentes, em especial na chamada Inteligência Artificial – IA. Assim começa o sumo pontífice: “A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos.” (MH, n. 1)
link da Encíclica: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html
O Papa desenvolve seu pensamento a partir de cinco conceitos que estão presentes desde o início de seu pontificado: Coração, Conversão, Cristocentrismo, Comunhão e Caridade (pode-se chamar, assim, os 5Cs do Papa Leão).
Na Introdução faz o uso de duas imagens bíblicas: a edificação da torre de Babel (cf. Gn 11, 1-9) onde se apostou em uma conquista de uniformidade e poder ao invés de trabalhar a comunhão e uma reconstrução das muralhas de Jerusalém empreendida por Neemias, a partir da reconstrução paralela das relações e vida comunitária (cf. Ne 1-2). Ali, na abertura do documento, o Sumo Pontífice envolve-nos em alertas para a importância de um combate a hipocrisia de um progressismo sem Deus; convida-nos a um realismo de ação evangélica contra entusiasmos ingênuos; e exorta-nos a ficarmos longe dos perigos da polarização que nos separa.
No primeiro capítulo, O Papa faz um embasamento sob a fidelidade do Evangelho, apontando como a Igreja caminha na história da humanidade e vence os desafios. Logo em seguida, no segundo capítulo, ele empreende uma revisão da Doutrina Social da Igreja que foi estabelecida de maneira mais forte a partir de Leão XIII. Ali, o papa Leão XIV acentua a comunhão com Deus como princípio para agir no amor próprio emanado da Trindade Santa, a oportunidade de exercer a Caridade.
No capítulo terceiro de sua Encíclica, o Sumo Pontífice trata sobre os aspectos da técnica e domínio e enleva a grandeza da pessoa humana perante as promessas da Inteligência Artificial. Dá-nos a tarefa de estar sob o Espírito Santo e na luz da Palavra, a assumir a construção de uma melhor: “Sob a orientação do Espírito, a Igreja deixa-se iluminar pela Palavra na leitura dos sinais dos tempos e na procura criativa de novos caminhos para que as relações entre as pessoas e os povos se tornem mais conformes às exigências do Reino de Deus.
Por isso, encorajo todos, em particular os fiéis leigos, a não ter medo de se deixar interpelar pela realidade, a escutar-se mutuamente e a assumir com firmeza a própria responsabilidade na construção duma sociedade mais humana e fraterna.” (MH, n. 91).
Trabalha sobre o paradigma tecnocrático e o poder digital, ali propõe “um discernimento moral e social que salvaguarde o primado da pessoa”. (MH, n. 97). O matemático Prevost, revestido de uma linguagem forte, faz um alerta precioso: “O que podemos afirmar é que se evite o equívoco de equiparar esta ‘inteligência’ à humana. Estes sistemas imitam algumas funções da inteligência humana.” (MH, n. 99).A partir do n. 118 (até o n. 126), o Papa toca-nos sobre os limites, o coração e a grandeza do ser humano, há uma ênfase preciosa: “A corrupção moral dos nossos limites – o mal que, de forma evidente, agita o coração do homem – destrói a sociedade e a vida, chegando a extremos de desumanidade. No entanto, também esta dolorosa forma de limitação deixa frestas abertas para o bem.” (MH, n. 121)
O Sumo Pontífice termina este capítulo com uma reflexão belíssima na luta de dois amores em nossos corações: “Santo Agostinho descreve a história humana como um campo de batalha entre dois amores, que construíram duas formas de habitar o mundo e de conviver, duas ‘cidades’: por um lado, o amor a Deus e ao próximo; por outro, o amor exclusivo a si mesmo. “Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus – a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si – a celeste”. (MH, n. 130)
No quarto capítulo faz o alerta sobre salvaguardar o humano na transformação verdade, trabalho, liberdade. A partir do n. 132 trata da verdade como bem comum. Lembra-nos o Papa que: “São João Paulo II refletiu sobre as consequências da ‘crise em torno da verdade’, chegando a afirmar que, “perdida a ideia de uma verdade universal sobre o bem, cognoscível pela razão humana, mudou também inevitavelmente a concepção da consciência”. (MH, n. 133). A partir do n. 135 trata sobre Comunicação e imaginário coletivo, propondo uma visão de “Ecologia da Comunicação”.No número 139 passa a propor uma aliança educativa para a era digital. Coloca três desafios: sociopolítico (n. 144), pedagógico (n. 145) e o intelectual sapiencial (n. 146).
A dignidade do trabalho na transição digital é tratada a partir do n. 148, nos números seguintes lembra os desafios do desemprego. “O trabalho não é um mero instrumento, mas expressa e enriquece a dignidade da nossa vida. É uma exigência inscrita na condição humana, um ordinário caminho para a maturidade, o desenvolvimento e a realização pessoal.”(MH, n. 149). Faz um convite a uma economia que valorize a dignidade no número 157 e nos seguintes.
Logo adiante, trata dos temas sobre Família e Jovens: condições sociais da esperança e a família em perspectiva de prioridade. “A família é um bem social primário. Fundada na união estável entre um homem e uma mulher, é o primeiro ambiente em que cada um desenvolve as suas potencialidades, toma consciência da própria dignidade e aprende as primeiras formas de verdade e bondade, interiorizando hábitos que preparam para a vida social.” (MH, n. 165).
A partir do n. 170, alerta-nos o Sumo Pontífice sobre dependências e controle social e nos chama a quebrar as correntes das novas formas de escravatura a partir do n. 173: “O tráfico deve ser reconhecido como uma forma contemporânea de escravatura e como uma grave violação da dignidade humana; não reagir com firmeza ou tolerar de alguma forma estas práticas significa, em certa medida, tornar-se hoje cúmplice das culpas cometidas no passado, quando a escravatura era justificada ou silenciada.” (MH, n. 175).
No capítulo quinto, o Papa Leão XIV faz uma contraposição da cultura do poder e a civilização do amor. Começa tratando dos malefícios das guerras, polarizações e violências e propõe, a partir do n. 186, a civilização do amor na era digital. A partir do n. 197, trata de Armas e IA e exorta que: “Não basta invocar genericamente a ética: é necessário indicar critérios precisos de discernimento. O primeiro diz respeito à responsabilidade pessoal”. (MH, n. 199). Do n. 201 em diante, aborda a crise do multilateralismo. Lembra, logo adiante, que há a solução cristã pela chave da conversão pessoal. No n. 212 o convite se abre assim: todos podemos fazer a nossa parte.
Surpreendentemente, o Papa citou um conceito que consta no terceiro livro de O Senhor dos Anéis: “John Ronald Reuel Tolkien, um escritor católico do século XX, através das palavras de um protagonista dum seu romance, descreveu assim a nossa responsabilidade: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar.” (MH, n. 213).
O Papa assevera que precisamos desarmar as palavras e construir a paz na justiça. A visão realista se faz necessária!“O realismo autêntico não renuncia a mudar o mundo: começa por ver com clareza os interesses, os medos, os vínculos e as relações de força, precisamente para calcular o que é possível alcançar e com que mudanças. Não reduz a política à moralidade, mas também não a entrega à violência: procura soluções viáveis para que a paz seja mais do que uma palavra, ou seja, instituições credíveis, garantias verificáveis, negociações pacientes, prevenção de conflitos e proteção dos civis.” (MH, n. 218).
Trata, a seguir (n. 218 e seguintes) de revitalizar o diálogo.“Nas relações internacionais, o diálogo é o instrumento insubstituível da diplomacia para prevenir conflitos e restabelecer laços de confiança.” (MH, n. 224). No seguinte (n. 225) lembra que o ciberespaço virou um campo de batalha!
Lembra que é preciso rezar e ter esperança: “Estas pistas de ação nutrem-se da oração e alimentam-na. Com efeito, para nós, a paz vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente. É um dom entregue por Jesus aos seus discípulos no dia da Páscoa: A paz esteja convosco! Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que é humilde e perseverante. (MH, n. 228).
Na Conclusão da encíclica, a presença da Mãe da Deus. “No final deste percurso, desejo entregar-vos um itinerário de vida cristã sóbrio e exigente, com o qual podemos viver esta mudança de época à luz do Evangelho. É um caminho que nasce da contemplação do desígnio de Deus, vive a unidade eclesial alimentando-se da Palavra e da Eucaristia, edifica o mundo no bem e reza com a Virgem Maria.” (HM, n. 229).
O papa faz-nos esta advertência: “O nosso coração sente a necessidade de descobrir um desígnio diferente, sábio e benevolente, semelhante ao que Maria contempla no Magnificat, quando proclama que, de geração em geração, a misericórdia de Deus se estende sobre aqueles que O temem.” (MH, n. 230). E nos diz o Santo Padre sobre a necessidade de se estabelecer relações autênticas. (MH, n. 233).
Convida-nos à Comunhão na Caridade: “A espiritualidade que necessitamos é uma espiritualidade eucarística, ou seja, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor.” (MH, n. 234). Acentua o exemplo da Virgem Maria: “sua alma glorifica o Senhor e o seu espírito exulta em Deus, seu Salvador, porque Ele escolheu para o seu desígnio de salvação uma jovem, pobre e humilde. Improvisamente, Maria vê toda a história com os olhos desta descoberta. (MH, n. 243).
O Papa Encerra sua primeira encíclica assim: “Com a mesma fé de Maria, tornemo-nos tecelões de esperança no nosso mundo, partilhando o que somos e o que temos, de modo que a presença de Jesus cresça entre nós e o seu Reino tome forma. Na humilde fidelidade de cada dia, também a era da IApode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida: o Senhor continua a renovar todas as coisas e mantém aberta, em cada época, a possibilidade de se tornar história de salvação à luz da Encarnação. Confio este desejo à Mãe de Cristo, à mulher do Magnificat, para que acompanhe os nossos passos no presente em mudança e guarde em cada um de nós a confiança no Evangelho, de modo que possamos testemunhar a beleza duma magnifica humanidade habitada por Deus. (MH, n. 245).