
Castel Gandolfo sedia um encontro entre vencedores do Prêmio Nobel, especialistas e representantes de grandes empresas de tecnologia para debater o desenvolvimento da Inteligência Artificial e as implicações para a condição humana. Na quinta (16/07), no Campidoglio, será assinada uma declaração que visa promover uma visão da segurança internacional baseada na cooperação, na dignidade humana e no desenvolvimento integral. O cardeal Tomasi: “a linguagem da dissuasão voltou a dominar as relações”.
Federico Piana – Castel Gandolfo
Trinta vencedores do Prêmio Nobel, 20 dos principais especialistas em Inteligência Artificial, incluindo membros de gigantes da tecnologia como OpenAI, Google DeepMind, AarU e Anthropic. Além disso, 30 ex-chefes de Estado e de governo e 30 representantes das universidades e instituições de pesquisa mais importantes e influentes do mundo, como a Universidade de Harvard, a Universidade de Oxford e a Universidade de Columbia, apenas para citar algumas.
Diálogo construtivo
A partir de hoje e até o próximo dia 16 de julho, o Borgo Laudato si’ está sediando a “Global Nobel Laureates Assembly on Artificial Intelligence and Nuclear War” — a Assembleia Mundial dos Prêmios Nobel sobre Inteligência Artificial e Guerra Nuclear — cujo objetivo declarado é promover um debate construtivo sobre “o futuro da segurança internacional, a governance das tecnologias emergentes, o desarmamento e a construção de uma economia de paz”. E a paz, como destacou na saudação de boas-vindas o cardeal Fabio Baggio, pro-prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral e diretor-geral do Centro de Formação Superior do Borgo Laudato si’, “não representa simplesmente a ausência de guerra. É uma ordem fundamentada na justiça, na confiança mútua, no respeito ao direito e na dignidade inviolável de cada ser humano”.
A serviço do bem comum
A Inteligência Artificial, portanto, torna-se uma ferramenta que deve estar autenticamente voltada para o serviço à pessoa e à paz: “ela constitui uma oportunidade extraordinária para o progresso da medicina, da pesquisa, da educação, da economia e da cooperação entre os povos. Justamente por isso, ela exige uma reflexão ética proporcional ao alcance de suas consequências”.

Visão ampla
O evento, iniciado na manhã desta terça-feira (14/07), foi idealizado por diversas organizações internacionais que atuam nas áreas de desarmamento, gestão de crises humanitárias e estudos científicos de ponta, inspirando-se e alimentando-se da encíclica de Leão XIV, Magnifica humanitas, sobre a proteção da pessoa humana na era da Inteligência Artificial e, como afirmam os organizadores, “insere-se na visão do Pontífice de uma paz desarmada e desarmante”.
No centro do debate destes dias está a busca por um novo paradigma global capaz de conciliar inovação, responsabilidade e ética. E certamente não é por acaso que um evento de tão grande alcance esteja ocorrendo justamente no Borgo Laudato si’, 55 hectares dentro das vilas pontifícias de Castel Gandolfo, que abrigam não apenas jardins históricos, estufas, hortas, olivais, vinhedos, árvores monumentais e inúmeras espécies vegetais, mas, essencialmente, um centro de pesquisa, acolhimento, formação e reflexão sobre a relação entre o homem, a natureza, a tecnologia e o desenvolvimento.
Mudança geopolítica
Um crescimento tecnológico que, nos últimos anos, vem recebendo um grande impulso da corrida pelos algoritmos, explicou o cardeal Silvano Maria Tomasi, núncio apostólico e presidente da Fundação Communis, entidade dedicada a apoiar encontros internacionais, fóruns e eventos centrados na ética e na promoção do bem comum: «a Inteligência Artificial, os sistemas autônomos, as tecnologias quânticas, as capacidades informáticas e as infraestruturas computacionais avançadas estão redefinindo o próprio conceito de segurança». Essas inovações técnicas, explicou o cardeal, estão repercutindo em um cenário geopolítico mundial em que “a linguagem da dissuasão voltou a dominar as relações internacionais, as ameaças nucleares são novamente invocadas abertamente e as atuais estruturas de controle de armamentos têm se enfraquecido progressivamente”.

O perigo de Babel
O cardeal Tomasi afirmou, com preocupação, que os conflitos regionais envolvem cada vez mais as potências globais, enquanto a possibilidade de uma escalada nuclear não é mais vista como um cenário abstrato, mas como um risco concreto e iminente. Citando a Magnifica humanitas, o cardeal quis lembrar que a humanidade de hoje se depara com uma escolha, como, no fundo, aconteceu com todas as gerações: «a de construir uma nova Babel, onde o poder tecnológico se torna um ídolo que promete a salvação, reduzindo, ao mesmo tempo, a pessoa humana a dados, eficiência e controle. Ou reconstruir Jerusalém, onde a diversidade se torna comunhão, a tecnologia está a serviço da fraternidade e toda inovação é medida com base na dignidade da pessoa humana, e não na expansão do poder. O Santo Padre nos lembra que a tecnologia nunca é moralmente neutra”.
Direitos fundamentais
A convicção de que um algoritmo, capaz de alterar profundamente o modo de viver e trabalhar do ser humano, não pode substituir a capacidade de discernimento humano é compartilhada também pelo cardeal Ángel Fernández Artime, pro-prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Em sua intervenção diante dos palestrantes e convidados internacionais, ele destacou que “o problema não é a tecnologia, mas a orientação que queremos dar a ela. Se não levarmos em conta os direitos fundamentais, corremos o risco de criar sistemas que favoreçam o controle, a manipulação e até mesmo novas formas de desigualdade”.

Rumo à Declaração de Roma
Durante toda a manhã desta terça-feira (14/07), houve inúmeras intervenções de vencedors do Prêmio Nobel, especialistas, ex-chefes de Estado e de governo e representantes de organizações da sociedade civil. A tarde continuaram as sessões a portas fechadas, em um processo de escuta e compartilhamento.
Ao final dos três dias de trabalhos será redigida a “Declaração de Roma por uma paz desarmada e desarmante na era da Inteligência Artificial, das armas nucleares e autônomas, dos novos protocolos digitais e dos modelos emergentes de desenvolvimento digital”, que será apresentada no dia 16 de julho no âmbito de um evento solene a ser realizado no Campidoglio. Este documento, segundo informaram os organizadores, “tem como objetivo definir princípios e diretrizes para a governance da Inteligência Artificial, promovendo uma visão da segurança internacional baseada na cooperação, na dignidade humana, no desenvolvimento integral e na paz entre os povos”.