Itália: dentro do centro de acolhimento de Lampedusa, pelos olhos dos migrantes

Em vista da chegada do Papa a Lampedusa no sábado, 4 de julho, a mídia do Vaticano visita Contrada Imbriacola, local onde, desde 2023, a Cruz Vermelha da Itália gerencia o fluxo migratório que chega à ilha: os espaços e os percursos do desembarque até o centro de acolhimento feitos por mulheres, crianças, homens e menores desacompanhados. Em cerca de 36 horas, o primeiro socorro e a identificação marcam vidas muitas vezes devastadas por viagens exaustivas em busca de uma nova vida.

Gabriella Ceraso e Franco Piroli – Lampedusa

Trabalhar com humanidade e acolher todos aqueles que atravessam o Mediterrâneo. São esses os princípios que movem a Cruz Vermelha Italiana, que, desde 1º de junho de 2023, assumiu oficialmente a gestão do centro de acolhimento de Contrada Imbriacola, em Lampedusa, por onde já passaram mais de 182 mil migrantes após travessias muitas vezes fatais. Esse continua sendo o principal ponto de primeiro desembarque do Mediterrâneo central. Encravado entre as colinas, longe da agitação do centro da cidade, o hotspot se estende por um desfiladeiro estreito, é vigiado pelas forças de segurança e se abre por meio de um grande portão eletrônico cinza.

Depois de passar pelos escritórios das autoridades e das organizações humanitárias — entre elas, Save the Children, ACNUR e OIM —, a equipe presente é multidisciplinar. Fazem parte integrante dela os mediadores culturais, presenças valiosas desde o desembarque no cais e, posteriormente, em cada etapa do processo de identificação e da transferência subsequente. Muitas vezes, são eles próprios: ex-migrantes, ex-hóspedes do Centro, que depois receberam treinamento para trabalhar na acolhida.

As cores cinzas, a cerca, alguns brinquedos um pouco enferrujados aqui e ali, marcam o espaço percorrido por quem chega aqui confuso, cansado e, às vezes, doente. Inicialmente, encontram-se bancos e abrigos repletos de tomadas elétricas e terminais para computadores; em seguida, os consultórios, os banheiros, os pré-fabricados destinados ao alojamento temporário, o refeitório com cozinha própria capaz de servir refeições para até 120 pessoas simultaneamente e também uma tenda destinada ao culto. Menores, mulheres, homens e famílias: a divisão que caracteriza a atribuição dos alojamentos também é reconhecível no chão pelas inscrições e pelas linhas brancas traçadas para delimitar as filas nas quais se acomodar durante a distribuição das refeições, de maneira ordenada, exceto em condições de superlotação que ainda se procura evitar.

A transformação em hotspot

A história deste espaço, delimitado por grandes árvores e por um muro de contenção, está intimamente ligada à evolução dos fluxos migratórios no Mediterrâneo Central e às políticas italianas e europeias de acolhimento. A estrutura surgiu como Centro de Primeiros Socorros e Acolhimento (CPSA) no início dos anos 2000, em resposta ao aumento da chegada de migrantes e requerentes de asilo à ilha. O objetivo era criar um local onde fossem realizadas as primeiras operações de identificação, assistência médica e acolhimento das pessoas resgatadas no mar.

Ao longo dos anos, o Centro foi ampliado várias vezes, reformado e reconvertido para lidar com o aumento das chegadas, além de ter sido alvo de protestos e denúncias, sobretudo durante as crises migratórias de 2011, 2020 e 2023 — ano em que, em setembro, em um único dia, desembarcaram 12.500 pessoas, e durante todo o verão o hotspot acolheu uma média de 3 mil pessoas por dia.

Em 2015, portanto, no âmbito da Agenda Europeia sobre Migração promovida pela Comissão Europeia, o Centro foi formalmente incluído no chamado sistema de “hotspots”, concebido como pontos de fronteira nos quais se concentram os procedimentos de identificação, registro fotográfico, assistência médica e início dos trâmites relativos ao asilo ou ao repatriamento.

Cruz Vermelha: “somos o primeiro lugar onde podem se sentir seguros”

“Muitas vezes chegam aqui sem nem mesmo saber onde estão”, explica nosso guia, o diretor do Centro de Acolhimento, Imad Dalil; por isso, uma seta no grande mapa da Itália afixado na área de acolhimento indica a pequena ilha do Mediterrâneo onde desembarcaram, juntamente com informações gerais e uma lista de serviços. A primeira necessidade, para todos, é conectar-se ao Wi-Fi, ligar, enviar uma mensagem e dar ou receber notícias de familiares e amigos: “aqui, tentamos oferecer a cada um a melhor assistência, especialmente de natureza psicológica, porque as histórias de viagem e de permanência na Líbia que nos contam são histórias de sofrimento que exigem proximidade, a necessidade de se sentirem seguros e de poderem começar a pensar em uma nova vida”. 

Fonte: Vatican News.

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