Exéquias: Padre Ramon Bertoldo, scj, esclarece as principais dúvidas sobre esse rito da Igreja

A morte continua sendo uma das experiências mais profundas e desafiadoras da existência humana. Mesmo em uma sociedade que procura evitar o tema ou escondê-lo, a partida de alguém que amamos nos obriga a confrontar questões fundamentais sobre o sentido da vida, da fé e da eternidade. Desde os tempos apostólicos, a Igreja acompanha seus filhos nesse momento por meio das exéquias cristãs, um conjunto de celebrações que unem oração, consolo e esperança.

b23a9b84 1781 48ad 9c2e 65a70067ff5b em Exéquias: Padre Ramon Bertoldo, scj, esclarece as principais dúvidas sobre esse rito da Igreja
Dom Gregório presidindo Missa exequial do Padre Luís Sartorel – Foto: Thiago Ribeiro

Mais do que uma despedida, as exéquias constituem uma verdadeira profissão de fé na Ressurreição. O Catecismo da Igreja Católica recorda que “o sentido cristão da morte é revelado à luz do Mistério Pascal da morte e da Ressurreição de Cristo” (CIC, n. 1681). A própria liturgia das exéquias encontra seu fundamento nas palavras de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25). Por isso, quando a Igreja reza por seus falecidos, ela não celebra a morte, mas proclama a vitória de Cristo sobre ela.

A palavra exéquias tem origem no latim exsequiae, que significa acompanhar, conduzir ou seguir alguém em sua partida. Esse significado expressa a missão da Igreja de acompanhar seus filhos até o limiar da eternidade, confiando-os à infinita misericórdia de Deus e oferecendo conforto àqueles que permanecem. Para aprofundar esse tema e esclarecer dúvidas sobre o sentido, a importância e a celebração das exéquias cristãs, o Padre Ramon Fernandes de Lima Bertoldo, religioso dehoniano, responde às principais questões sobre esse rito da Igreja.

Quem está autorizado pela Igreja a presidir as exéquias de um fiel falecido?

cq5dam.thumbnail.cropped.750.422 2 3 em Exéquias: Padre Ramon Bertoldo, scj, esclarece as principais dúvidas sobre esse rito da Igreja
Papa Leão XIV nas exéquias do cardeal Tscherrig – Foto: Vatican Media

A presidência das exéquias é confiada ordinariamente aos ministros ordenados da Igreja: bispos, presbíteros e diáconos. Essa determinação encontra seu fundamento no Código de Direito Canônico, que assegura aos fiéis o direito de receber as exéquias eclesiásticas (cf. CDC, cân. 1176 §1), e no Ritual Romano das Exéquias, livro litúrgico promulgado após a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

O próprio Código de Direito Canônico acrescenta que as exéquias têm por finalidade implorar auxílio espiritual para os falecidos, honrar seus corpos e levar aos vivos o consolo da esperança (cf. CDC, cân. 1176 §2). Não se trata, portanto, de uma simples homenagem póstuma ou de uma cerimônia de despedida, mas de uma ação litúrgica por meio da qual a Igreja continua exercendo sua missão de santificar, evangelizar e consolar.

A presença do ministro ordenado não é uma mera formalidade. Ela expressa sacramentalmente a solicitude da Igreja que acompanha seus filhos desde o Batismo até a passagem para a Casa do Pai. O Ritual Romano afirma que, ao celebrar as exéquias, a Igreja “oferece sufrágios pelos falecidos, honra seus corpos e leva aos vivos o consolo da esperança” (Ritual Romano: Exéquias, Introdução Geral, n. 4).

Essa compreensão remonta aos primeiros séculos do Cristianismo. Já no século IV, encontramos testemunhos de comunidades que se reuniam junto aos túmulos dos mártires para celebrar a Eucaristia e rezar pelos falecidos. Santo Agostinho relata, nas Confissões (Livro IX, capítulo 11), o pedido feito por sua mãe, Santa Mônica: “Somente vos peço que vos lembreis de mim diante do altar do Senhor”. A memória dos mortos sempre esteve profundamente unida à oração litúrgica da Igreja.

Um diácono pode celebrar todas as partes das exéquias ou existem limitações em relação ao sacerdote?

882a0634 1d91 4df0 833d 4168512e69a4 em Exéquias: Padre Ramon Bertoldo, scj, esclarece as principais dúvidas sobre esse rito da Igreja
Diácono Maclyston Nascimento presidindo exéquias – Foto: arquivo pessoal

O ministério do diácono possui importante papel na celebração das exéquias. Conforme estabelece o Ritual Romano das Exéquias (nn. 19-22), ele pode presidir a vigília pelos falecidos, a celebração da Palavra, os ritos de despedida e o sepultamento. Em muitas comunidades, especialmente onde há diáconos permanentes, sua presença é sinal concreto da proximidade da Igreja junto às famílias enlutadas.

O Diretório para o Ministério e a Vida dos Diáconos Permanentes, publicado pela Congregação para o Clero em 1998, recorda que o diácono é chamado a exercer de modo particular o ministério da caridade, da proximidade e da consolação, acompanhando os fiéis nos momentos de sofrimento, enfermidade e luto (n. 39).

Existe, contudo, uma distinção fundamental entre o ministério diaconal e o sacerdotal. Quando a celebração exequial inclui a Santa Missa, sua presidência é reservada ao bispo ou ao presbítero. Isso ocorre porque somente o sacerdote possui a faculdade de oferecer o Sacrifício Eucarístico agindo in persona Christi Capitis, isto é, na pessoa de Cristo Cabeça, conforme ensina o Concílio Vaticano II na Constituição Lumen Gentium (n. 28).

Em quais circunstâncias um leigo pode conduzir orações exequiais?

Embora a presidência ordinária das exéquias pertença aos ministros ordenados, a Igreja reconhece que determinadas circunstâncias pastorais exigem a colaboração dos fiéis leigos. O cânon 230 §3 do Código de Direito Canônico prevê essa possibilidade quando a necessidade da Igreja o requer e não há ministros suficientes.

Em diversas regiões do Brasil, especialmente nas comunidades rurais, áreas missionárias e localidades mais afastadas dos centros urbanos, homens e mulheres preparados pela Igreja desempenham um importante serviço de acompanhamento às famílias enlutadas. Em muitas dioceses, recebem a missão de Ministros da Esperança.

No Nordeste brasileiro, realidade tão presente também em nossa Arquidiocese, não é raro encontrar comunidades que dependem fortemente desses ministros para garantir que nenhuma família enfrente sozinha a dor da perda. Seu serviço manifesta de maneira concreta a proximidade da Igreja e a força da comunhão eclesial.

A Instrução Ecclesiae de Mysterio (1997) recorda que essas funções devem ser exercidas como colaboração extraordinária, sem confusão com o ministério ordenado. Ainda assim, representam uma expressão concreta da corresponsabilidade dos fiéis na missão evangelizadora da Igreja.

Quais são as diferenças entre a Missa de Exéquias e outras celebrações pelos falecidos?

cq5dam.thumbnail.cropped.750.422 1 8 em Exéquias: Padre Ramon Bertoldo, scj, esclarece as principais dúvidas sobre esse rito da Igreja
Missa Exequial do cardeal Camillo Ruini, falecido no 16 de junho de 2026  – Foto: Vatican Media

A Missa de Exéquias ocupa lugar singular entre todas as celebrações pelos falecidos. Ela é considerada a principal celebração litúrgica realizada por ocasião da morte de um fiel e, normalmente, acontece antes do sepultamento ou da cremação.

Nela, a Igreja reúne diversos elementos simbólicos profundamente ligados ao Batismo. O corpo é acolhido na igreja, aspergido com água benta e colocado próximo ao círio pascal. Esses sinais recordam que aquele cristão foi incorporado à morte e à Ressurreição de Cristo quando recebeu o Batismo (cf. Rm 6,3-5).

Também o uso do incenso possui profundo significado. Além de expressar respeito ao corpo daquele que foi templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 6,19), recorda a oração da Igreja que sobe à presença de Deus, conforme descrito no Salmo 141,2 e no Apocalipse 8,3-4.

Já as Missas de sétimo dia, trigésimo dia ou aniversário de falecimento possuem natureza distinta. Embora também sejam celebrações em sufrágio dos mortos, não constituem exéquias propriamente ditas. São momentos em que a comunidade continua rezando pelos falecidos e fortalecendo os familiares na esperança cristã.

Joseph Ratzinger, posteriormente Papa Bento XVI, recorda em sua obra Escatologia: Morte e Vida Eterna que a oração pelos mortos nasce da certeza de que o amor de Cristo é mais forte do que a própria morte e continua unindo aqueles que pertencem ao seu Corpo Místico.

É possível realizar exéquias quando não há presença de um padre na comunidade?

Sim. A própria Igreja prevê essa possibilidade. O Ritual Romano das Exéquias apresenta formas de celebração sem a presença do sacerdote e até mesmo sem a celebração da Eucaristia, quando as circunstâncias pastorais assim exigem.

Nesses casos, um diácono ou um leigo legitimamente designado pode conduzir a celebração da Palavra, as preces de intercessão e os ritos de despedida. Essa prática é particularmente importante em comunidades onde a presença sacerdotal não é frequente.

A Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia, recorda que Cristo está presente de múltiplas formas na vida litúrgica da Igreja: na Palavra proclamada, na assembleia reunida em seu nome e na oração da comunidade (cf. SC, n. 7). Assim, mesmo na ausência da celebração eucarística, a comunidade permanece reunida em torno da esperança cristã e da certeza da presença do Senhor.

Quais livros litúrgicos e normas regulam a celebração das exéquias na Igreja Católica?

09deec84 40c5 4298 a248 6c6003a3d450 em Exéquias: Padre Ramon Bertoldo, scj, esclarece as principais dúvidas sobre esse rito da Igreja
Missal Romano – Foto: Thiago Ribeiro

A principal referência é o Ritual Romano: Exéquias, atualmente utilizado em toda a Igreja Latina. Nele estão reunidas as orações, leituras, bênçãos e orientações pastorais que regulam a celebração.

Além desse livro, outras fontes possuem especial relevância. O Código de Direito Canônico dedica os cânones 1176 a 1185 às exéquias eclesiásticas; o Catecismo da Igreja Católica aborda o tema nos números 1680 a 1690; o Missal Romano apresenta as Missas pelos Defuntos; e o Cerimonial dos Bispos oferece orientações específicas para as celebrações presididas pelo bispo diocesano.

Merece destaque ainda a Instrução Ad resurgendum cum Christo (2016), publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, que trata da conservação das cinzas após a cremação e reafirma a preferência da Igreja pela sepultura dos corpos, sem proibir a cremação quando esta não representa negação da fé cristã na ressurreição.

Quais responsabilidades pastorais cabem à pessoa que conduz as exéquias junto à família enlutada?

cq5dam.thumbnail.cropped.750.422 18 em Exéquias: Padre Ramon Bertoldo, scj, esclarece as principais dúvidas sobre esse rito da Igreja
Cardeal Giovanni Battista Re durante a missa das exéquias do Papa Francisco – Foto: Vatican Media

Talvez esta seja a questão mais importante de todas. Quem conduz uma celebração exequial não é apenas alguém que executa ritos previstos em um livro litúrgico. É alguém chamado a ser presença de Cristo junto aos que sofrem.

O Ritual Romano insiste que os ministros devem oferecer à família “o conforto da fé e o consolo da esperança cristã” (Introdução Geral, n. 17). Isso significa escutar, acolher, rezar, acompanhar e ajudar os familiares a encontrar sentido mesmo em meio à dor da perda.

Nesse contexto, a homilia ou reflexão não pode transformar-se em um simples elogio fúnebre. Sua missão é anunciar Cristo morto e ressuscitado, fundamento da esperança cristã. Como recorda São Paulo: “Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor” (Rm 14,8).

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (n. 44), recorda que a Igreja é chamada a acompanhar com misericórdia e paciência os processos humanos. Essa orientação encontra expressão concreta no acompanhamento das famílias enlutadas, que frequentemente necessitam não apenas de palavras, mas de presença, escuta e proximidade.

O acompanhamento pastoral também não termina no cemitério. A visita à família, a celebração da Missa de sétimo dia, os sufrágios posteriores e a proximidade da comunidade são expressões concretas da caridade da Igreja.

Celebrar as exéquias é, portanto, uma das formas mais belas de evangelização. Em um momento em que tantas palavras parecem insuficientes, a Igreja anuncia, por meio da liturgia, que a morte não tem a última palavra. Em Cristo Ressuscitado, a vida é transformada, não destruída. E é essa esperança que sustenta o coração dos que choram e fortalece a fé daqueles que continuam sua caminhada rumo à eternidade.

Referências Bibliográficas e Documentais

Magistério da Igreja

  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 1006-1014; 1680-1690.
  • Código de Direito Canônico, cânn. 1176-1185.
  • Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 28.
  • Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, n. 7.
  • Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n. 44.
  • Dicastério para a Doutrina da Fé, Ad resurgendum cum Christo (2016).
  • Instrução Ecclesiae de Mysterio (1997).

Livros Litúrgicos

  • Ritual Romano: Exéquias. Paulus.
  • Missal Romano. Edição CNBB.
  • Cerimonial dos Bispos.
  • Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia (2001).

Obras de Referência

  • Santo Agostinho. Confissões, Livro IX.
  • Joseph Ratzinger. Escatologia: Morte e Vida Eterna.
  • José Aldazábal. A Celebração na Igreja.
  • Matias Augé. Liturgia: História, Celebração e Teologia.
  • Anscar Chupungco. Introdução à Liturgia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Faça a sua pesquisa

Os cookies nos ajudam a entregar nossos serviços. Ao usar nossos serviços, você aceita nosso uso de cookies. Descubra mais