
Leão XIV recebeu na manhã desta segunda-feira (27/04), Sua Graça Sarah Mullally, arcebispa de Cantuária. Em seu discurso, o Papa recorda o “memorável encontro”, há sessenta anos, entre o arcebispo Michael Ramsey e São Paulo VI, que anunciaram o primeiro diálogo teológico entre anglicanos e católicos, e reafirma que as divisões enfraquecem, em “um mundo sofredor”, a eficácia do anúncio do Evangelho.
Antonella Palermo – Vatican News
Unidos para proclamar a paz em um mundo dilacerado por conflitos. Leão XIV recebe no Vaticano, na tradição dos encontros entre os arcebispos de Cantuária e os bispos de Roma, Sua Graça Sarah Mullally, arcebispa de Cantuária, autoridade espiritual da Comunhão Anglicana, que tomou posse oficialmente no último dia 25 de março. Passaram-se sessenta anos daquele que define como o “memorável encontro entre São Paulo VI e o arcebispo Michael Ramsey”, e o caminho rumo a relações cada vez mais estreitas, centradas nos esforços comuns para dizer ‘não’ às guerras no mundo, mostra-se hoje mais inadiável do que nunca. Seria um “escândalo”, afirma, não se empenhar em superar as diferenças, “por mais insuperáveis que possam parecer”.
Testemunhar a paz desarmada de Cristo
Entre os presentes na audiência, o diretor do Centro Anglicano em Roma, o bispo Anthony Ball, que nesta noite será nomeado representante da arcebispa junto à Santa Sé. O encontro, que ocorre no tempo pascal, oferece ao Pontífice a ocasião de reafirmar a necessidade de ser mensageiros da paz do Ressuscitado, uma paz — sublinha — “desarmada”, porque “Ele sempre respondeu à violência e à agressão de modo desarmado, convidando-nos a fazer o mesmo”. É simplesmente olhando para Cristo que os cristãos devem “oferecer juntos um testemunho profético e humilde desta realidade profunda”, destaca o Sucessor de Pedro, evidenciando o lema escolhido para o seu pontificado (“No único, somos um”) e a Mensagem para o Dia Mundial da Paz para este ano.
Remover toda pedra de tropeço
Consciente da necessidade da unidade, que torna a evangelização “mais fecunda”, o Papa volta o olhar para as feridas do tempo presente, em várias regiões do planeta, e recorda a importância de manter sempre vivo este pressuposto, que é ao mesmo tempo um objetivo:
“Enquanto o nosso mundo sofredor tem profunda necessidade da paz de Cristo, as divisões entre os cristãos enfraquecem a nossa capacidade de sermos portadores eficazes dessa paz. Se queremos que o mundo acolha com o coração a nossa pregação, devemos ser perseverantes na oração e nos esforços para remover qualquer pedra de tropeço que impeça a proclamação do Evangelho.”
Proclamar Cristo superando os desafios das questões divisivas
A postura concreta do Pontífice se torna exemplar ao dirigir-se à arcebispa de Cantuária e, referindo-se aos aspectos que ainda permanecem como fonte de divisão, afirma: “Não devemos permitir que esses desafios constantes nos impeçam de aproveitar toda ocasião possível para proclamar juntos Cristo ao mundo”, e observa:
“Certamente, este caminho ecumênico tem sido complexo. Embora muitos progressos tenham sido alcançados em questões historicamente divisivas, nas últimas décadas surgiram novos problemas, tornando mais difícil discernir o caminho rumo à plena comunhão. Sei que também a Comunhão Anglicana está enfrentando muitas dessas mesmas questões no presente.”
Seria um escândalo não trabalhar para superar as diferenças
Leão retoma, confirma e completa, por fim, o que já havia dito seu predecessor Francisco aos Primazes da Comunhão Anglicana em 2024, ao falar de “escândalo” caso as divisões comprometessem o conhecimento do Evangelho por todos. Hoje, o Papa utiliza a mesma expressão:
“De minha parte, acrescento que seria um escândalo também se não continuássemos a trabalhar para superar as nossas diferenças, por mais insuperáveis que possam parecer.”
Mullally: diante da violência desumana, trabalhar pelo bem comum
“No mundo de hoje, somos chamados a viver e anunciar o Evangelho com renovada clareza”, afirmou a arcebispa de Cantuária diante do Papa. “Diante de uma violência desumana, de profundas divisões e de rápidas mudanças sociais, devemos continuar a contar uma história de esperança: de que toda vida humana tem um valor infinito, porque somos filhos preciosos de Deus; de que a família humana é chamada a viver como irmãos e irmãs; de que devemos, portanto, trabalhar juntos pelo bem comum, construindo sempre pontes, nunca muros; de que os mais pobres entre nós estão mais próximos do coração de Deus; e de que as forças da morte são vencidas pela vida ressuscitada de Cristo. Esta é a visão de Jesus Cristo: é sobre ela que devemos fixar o olhar nos anos que virão”. A primaz expressou satisfação pela recente viagem apostólica do Papa à África, “cheia de vida e de alegria. O mundo precisava desta mensagem neste momento: obrigado”. Também a arcebispa realizará em julho uma missão no continente africano, no Gana e nos Camarões. Estar ao lado dos outros “em seu sofrimento e tristeza, mas também em sua cura e alegria” é o compromisso que Mullally renova.

Nesta noite, a arcebispa anglicana presidirá a celebração vespertina com cânticos corais na igreja de Santo Inácio de Loyola, durante a qual dará posse ao bispo Anthony Ball, diretor do Centro Anglicano de Roma, como representante do arcebispo de Cantuária junto à Santa Sé. A homilia será proferida pelo cardeal Luis Antonio Tagle, pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização. A peregrinação se concluirá amanhã com visitas ao Centro de Refugiados Joel Nafuma (JNRC), na basílica de São Paulo “dentro dos muros”, e aos projetos administrados pela Comunidade de Santo Egídio.