
Vivemos uma significativa transformação na história da humanidade. A inteligência artificial, a automação, a robótica e a cultura digital estão modificando sensivelmente a forma como trabalhamos, aprendemos, nos comunicamos e construímos os nossos vínculos. A velocidade dessas mudanças é tão intensa que, muitas vezes, temos a sensação de que o desenvolvimento tecnológico avança mais rapidamente do que a nossa capacidade de compreender os seus impactos.
É nesse contexto que a carta encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV (2026), apresenta uma reflexão atual e pertinente. O documento propõe uma questão essencial, que diz respeito a como preservar a dignidade humana em uma época marcada pela expansão da inteligência artificial e pela crescente digitalização da vida. Logo na introdução, o texto adverte que a humanidade corre o risco de perder a sua identidade quando permite que a lógica da técnica se sobreponha ao valor da pessoa (LEÃO XIV, 2026, n. 1).
A grande contribuição da encíclica é lembrar que o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como nos relacionamos com ela. O desenvolvimento tecnológico é reconhecido como uma expressão da criatividade humana, um instrumento ligado à autonomia e à liberdade da pessoa (LEÃO XIV, 2026, n. 4). Entretanto, quando não é acompanhado por uma maturação ética, social e psicológica adequada, pode produzir um efeito contrário, que é o crescimento dos meios sem o crescimento da humanidade. Em outras palavras, passamos a ter mais, mas não necessariamente a ser mais.
Trata-se de uma reflexão que dialoga diretamente com a Psicologia. Afinal, o desenvolvimento humano não pode ser reduzido ao desempenho, à produtividade ou à eficiência. A pessoa é muito mais do que aquilo que produz.
A encíclica alerta para uma ideologia particularmente perigosa, em que se acredita que cada indivíduo precisa conquistar ou justificar o próprio valor por meio do desempenho. Nessa perspectiva, as pessoas mais eficientes seriam consideradas mais valiosas do que as demais. O resultado é a instrumentalização do ser humano, que deixa de ser reconhecido como um fim em si mesmo e passa a ser tratado como um recurso a ser utilizado.
“Evitemos, portanto, a “síndrome de Babel”: a idolatria do lucro, que
sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de
uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e
desempenhos, inclusive o mistério da pessoa.” (LEÃO XIV, 2026, n. 10).
A pressão permanente para produzir, superar metas e alcançar resultados cria uma lógica de exaustão emocional que afeta a saúde mental e desumaniza a pessoa. O excesso de desempenho pode provocar uma verdadeira morte da identidade, ao ter que corresponder às expectativas externas e perder a necessária consciência dos próprios propósitos e do sentido de sua vida.
Do ponto de vista psicológico, isso significa que a aceleração constante pode comprometer processos fundamentais para o desenvolvimento da personalidade, como a capacidade de elaborar experiências, reconhecer emoções, refletir sobre os próprios sentimentos e construir um projeto de vida coerente.
É nesse cenário que o autoconhecimento se torna um instrumento indispensável para a preservação da dignidade humana. O exercício contínuo de voltar-se para si fortalece a estrutura psíquica, favorece o acolhimento da própria história e amplia a segurança nas escolhas. Em uma sociedade marcada pela rápida transformação tecnológica, conhecer-se torna-se um caminho fundamental para preservar a própria humanidade.
A Magnifica Humanitas sinaliza para a importância da dignidade existencial, porque está associada à forma como cada pessoa percebe o valor de si mesma e da própria vida. Tal expressão realça o quanto o valor da vivência do autoconhecimento se torna essencial. Isto porque, quanto mais a pessoa conhece a si mesma, maior é a sua capacidade de reconhecer o próprio valor, identificar os seus limites, compreender os seus sentimentos e construir relações mais saudáveis consigo, com os outros e com o mundo. Destacando que conhecer-se não significa apenas identificar qualidades. Significa também reconhecer fragilidades, contradições e condicionamentos. Neste sentido, a Magnifica Humanitas propõe uma reflexão importante sobre os limites humanos. Em uma sociedade que valoriza a perfeição, a produtividade e a eficiência, a fragilidade costuma ser interpretada como uma condição incapacitante:
“Tudo o que se apresenta como “limite” – incapacidade, doença, velhice,
sofrimento, vulnerabilidade – tende a ser interpretado, antes de mais, como um
defeito a corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à
relação. Em vez disso, devemos recordar que o humano não floresce apesar dos
limites, mas, muitas vezes, através dos limites.” (LEÃO XIV, 2026, n. 118).
Essa ideia aproxima-se da noção de C. G. Jung de integração da sombra. A sombra representa os aspectos da personalidade que preferimos esconder ou negar. Entretanto, aquilo que é reprimido não desaparece, mas, pelo contrário, continua a influenciar pensamentos, emoções e comportamentos (JUNG, 2013). A integração da sombra não significa aceitar passivamente as próprias limitações, mas reconhecê-las como parte da experiência humana. A sabedoria não está em afastar a dor ou negar a fragilidade, mas em integrá-las ao processo de crescimento. A própria encíclica afirma que a dor interior não deve ser eliminada ou suprimida, mas integrada (LEÃO XIV, 2026, n. 120).
Uma pessoa que conhece a si mesma e se acolhe de maneira integral, com suas luzes e sombras, torna-se mais inteira e fortalecida, portanto, menos vulnerável às manipulações externas. Ela consegue reconhecer os próprios valores, estabelecer limites mais claros e fazer escolhas mais conscientes. Por isso, o documento insiste na necessidade de educar crianças, adolescentes e jovens para que aprendam a identificar manipulações e a defender a própria dignidade, inclusive nos ambientes digitais (LEÃO XIV, 2026, n. 42).
A educação para o autoconhecimento precisa promover o desenvolvimento da consciência de si, da reflexão crítica e da capacidade de atribuir sentido à própria existência. Mais do que aprender a utilizar a tecnologia, é necessário aprender a utilizá-la sem perder de vista a essência da pessoa humana e a defesa de sua dignidade – lugar sagrado da verdade sobre si mesmo! Esta é uma proposição fundamental que também é garantida no número 128 da encíclica, inspirada nas palavras do Papa Francisco: “chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro”.
Existe, inclusive, um risco apontado pela encíclica que se associa à possibilidade de substituirmos relações reais por simulações de relações. O documento alerta que a imitação artificial do cuidado pode se tornar perigosa quando as relações humanas concretas são enfraquecidas. O maior perigo não é acreditar que estamos conversando com outra pessoa, mas perder o desejo de procurar verdadeiramente o outro (LEÃO XIV, 2026, n. 100). Essa advertência nos alerta para o empobrecimento das relações, porque elas são condutas indispensáveis para o crescimento pessoal, pois nos colocam em encontro com nós mesmos, alimentando a potência de autoconhecimento em nossa composição psicológica.
O psiquiatra Ludwig Binswanger (1971) defendeu que toda experiência humana está inserida em um contexto relacional. O ser humano constrói a própria identidade a partir do encontro com o outro. Essa perspectiva ajuda a compreender por que a tecnologia, apesar de extraordinária, não substitui aquilo que é exclusivamente humano: a capacidade de atribuir significado à existência.
Para concluir, vale a pena retomar as questões propostas pela Magnifica Humanitas, que sintetizam o propósito da reflexão apresentada na carta encíclica: “Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?” (LEÃO XIV, 2026, n. 6). O horizonte apontado pelo documento é a defesa da dignidade humana e a preservação dos valores que sustentam o bem comum, para que a promoção da vida continue a ser o princípio orientador da existência humana. É como está de forma assertiva, no número 59 do documento, ao descrever um dos princípios da doutrina social, que é o princípio do bem comum: “(…) com efeito, para um cristão, sair do pequeno mundo dos próprios interesses e empenhar-se, na medida das suas possibilidades, pelo bem comum é um valor inegociável, tal como o é a promoção da vida.”
Na perspectiva psicológica, uma resposta conexa encontra-se no investimento da vivência do autoconhecimento. Quanto mais nos conhecemos, mais desenvolvemos a autonomia necessária para lidar com as transformações tecnológicas sem nos tornarmos dependentes delas. Quanto maior for a consciência sobre quem somos, mais preparados estaremos para utilizar a tecnologia como instrumento de crescimento, e não como mecanismo de alienação. O autoconhecimento nos ajuda a compreender os nossos desejos, reconhecer as nossas vulnerabilidades, fortalecer os nossos valores e construir uma identidade menos suscetível às pressões do desempenho e do imediatismo.
Em uma época em que algoritmos disputam a nossa atenção, conhecer a si mesmo tornou-se um ato de liberdade. Conhecer-se para não se perder. Conhecer-se para preservar a dignidade. Conhecer-se para continuar sendo humano.
REFERÊNCIAS
BINSWANGER, Ludwig. Introdução à análise existencial. Belo Horizonte: Interlivros, 1971.
JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. 25. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
LEÃO XIV. Carta encíclica Magnifica Humanitas: sobre a dignidade humana na era da inteligência artificial. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2026.
ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.
Respostas de 2
Importante a dimensão do autoconhecimento e a partir dele saber utilizar a tecnologia a serviço do crescimento e da vida!
Obrigado Lourdes pelo seu comentário. De fato não podemos abrir deste recurso tão necessário do autoconhecimento para converter em serviço à vida todo saber e tecnologia.