É salutar ajudar o povo de Deus a se beneficiar do Sacramento da Confissão que restabelece a dignidade de filhos perdoados e amados pelo Senhor

cq5dam.thumbnail.cropped.1500.844 em É salutar ajudar o povo de Deus a se beneficiar do Sacramento da Confissão que restabelece a dignidade de filhos perdoados e amados pelo Senhor
Foto: divulgação

A Igreja Católica, ao longo de seu vigoroso itinerário de mãe e mestra, buscou levar o ser humano a concretizar a santidade a partir do amor misericordioso, semeado por Nosso Senhor desde quando peregrinou sobre a terra, em meio às suas catequeses, à proximidade, ao acolhimento e à maneira ímpar de se compadecer das fraquezas e das inconsistências que fazem parte da condição humana. Para que essa dinâmica salvadora seja realizada a contento por Cristo no coração das pessoas, é necessário que elas busquem personificar frutuosamente a graça de Deus. Não é de bom-tom somente sabermos intelectualmente os ensinamentos da Igreja; há que se ter ressonância na vida real enquanto testemunho de fé. Assim fizeram os primeiros cristãos.

Os Sacramentos da Igreja são realidades de fé a nos colocar em peregrinação de santidade e salvação. São subdivididos em três: Sacramentos da Iniciação Cristã (Batismo, Eucaristia e Crisma); Sacramentos de Cura (Unção dos Enfermos e Confissão); Sacramentos do Serviço (Ordem e Matrimônio). Tudo isso para suscitar na consciência, no coração e na vida das pessoas a presença da graça divina, a ser recepcionada e frutificada por meio do envolvimento por inteiro na história da salvação ofertada por Nosso Senhor.

O desabrochar da graça de Deus na vida da pessoa comporta um processo, às vezes doloroso, e não acontece isoladamente. Embora tenha a presença da ação divina, é preciso corroborar com os apelos de Deus, que vêm ao nosso encontro diariamente.

Não somos como os vegetais, que avançam na maturidade sem retroceder, ao calor do Sol. Há pessoas maduras que voltam à imaturidade, boas pessoas que deixam de sê-lo. Maturidade requer esforço e tempo, é um processo que dura toda a vida. Há que se armar de muita paciência. Não amadurecemos sozinhos, necessitamos de cuidados, de educação, do tempo dos demais. Primeiro, dos pais; depois, de quem nos rodeia e da sociedade (Santos, 2019, p. 87).

É preciso o acolhimento das iniciativas da Divina Providência por meio das várias instâncias, nas quais o ser humano é convidado a se abrir aos apelos do Senhor – “[…] Deus é sempre o primeiro. Daí a necessidade de Jesus Cristo, da Igreja, dos sacramentos, da oração”, relata Miranda (2004, p. 82). A autossuficiência não coaduna com um coração que busca preservar a amizade com Deus, que é a razão maior de sua existência e presença no mundo. O pecado não se encontra distante de nós! Às vezes, transformamos os pecados em pecados de “estimação”, de tanto repeti-los e, por outro lado, não são poucas as pessoas que se anestesiam quanto às culpas diante de Deus, as pessoais e as coletivas. O fruto dessa postura reprovável pode ser a fuga ou o endeusamento da técnica, do poder, do status, da inteligência e o refugiar-se num ego inflado, que a si mesmo basta, ou seja, sentir-se o centro e a medida de todas as coisas.

A nossa relação com a vida parece estar hoje em crise. Tudo o que se apresenta como “limite” – incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade – tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação (Leão XIV, n. 118. On-line).

O Sacramento da Confissão é remédio e bálsamo para os que se encontram distantes de Deus e que suplicam o seu perdão humildemente, sem jamais partir do “pedestal” do orgulho que apequena o ser humano também diante de Nosso Senhor. De acordo com Santo Agostinho (1999, p. 299), “Tal é o motivo por que não Vos amamos, nem santamente Vos tememos. Por isso, resistis aos soberbos e dais a vossa graça aos humildes!”. O reconhecimento do senhorio de Deus é ponto de partida para a reconciliação – com Deus, consigo, com os outros, com a comunidade e com a natureza. Essas realidades fazem parte do humilde exame de consciência para se obter o perdão dos pecados com confiança e resignação.

A vida humana, embora tenha a parte falível, a santidade se faz presente. Basta observar a vida dos santos da Igreja, que souberam seguir o Cristo humilde e perdoador:

Entendemos os Santos como pessoas que concretizaram em suas vidas os ensinamentos do Mestre Jesus, não obstante as fraquezas humanas, em meio às tribulações oriundas da sua condição. Suas vidas são mensagens de superação e proteção do Senhor aos que padecem aflição. Por intercessão dos Santos, recebemos os tesouros da profunda ligação da Igreja celeste (Comunhão dos Santos) com a Igreja terrestre (peregrina para comunhão plena com Deus) (Alves, 2025, p. 60-61).

Em algumas situações, na confissão, nem sempre se trata de matéria de pecado ou falta especificamente grave. Muitos fiéis buscam ser escutados através do senso de ovelha que precisa do bom pastor perdoador, acolhimento realizado pelo sacerdote, que é instrumento qualificado da misericórdia divina para com a ovelha ferida e, sobretudo, arrependida. A fé cristã não é anestesiada da realidade. Ela busca, também, entender, discernir e dialogar com o que acontece na contemporaneidade. Tudo isso causa impactos significativos enquanto vivência da fé – “As novidades do nosso tempo precisam ser levadas em conta nesse discernimento: a mobilidade humana, a cultura digital, as exigências da vida humana e os novos paradigmas antropológicos que incidem sobre os interlocutores do anúncio”, segundo a CNBB (n. 193, p. 103).

É importante o sentido de prontidão para com as pessoas que buscam esse sacramento, necessário para o perdão dos pecados cometidos e, consequentemente, a retomada da graça de Deus que havia sido enfraquecida pela falta cometida.

É bonito de se ver nas Igrejas, ou pode servir de sugestão: a) o silêncio e a revisão de consciência também na fila de confissão, para que o sacramento seja realizado da maneira mais frutuosa possível; b) pode-se ter, dentro da cabine de Confissão, o Ato Penitencial afixado, pois nem sempre os fiéis sabem rezá-lo decorado; c) é importante, onde acontecem as confissões, ter um mapa mental ilustrado sobre os atos do penitente e em que consiste cada qual. É uma espécie de catequese preparatória.

Quando se vai ao confessionário, há que colocar em prática os atos do penitente. Esses atos, realizados com esmero, conectam a pessoa com o perdão de Deus por meio da Santa Igreja, que, na pessoa do sacerdote, age enquanto o Cristo bom pastor.

Os atos do penitente são: contrição, confissão, satisfação e a absolvição.

– Contrição: é a dor pelos pecados cometidos e com o propósito de não mais pecar. O ser humano, criatura do Senhor, é chamado a ser continuador da comunhão e da santidade com Deus. A mudança de vida constitui marco importante na vida nova experimentada no Sacramento da Confissão. A contrição interior repercute na penitência para uma vida transformada. A conversão deve ser realizada em seu interior para ser luz mediante o reflexo do Cristo irrepreensível no amor; Confissão: aqui se acusa por meio dos pecados cometidos. Não é momento para justificativas sobre a culpa. É momento de humildade! Precisa ser realizado segundo a confiança na misericórdia de Deus. É hora de abrir o coração para o sacerdote que escuta e pelo seu ministério sagrado concede o perdão delegado pela Igreja, ou seja, age em nome de Cristo e verbaliza a absolvição segundo o poder das chaves – remissão ou retenção dos pecados; Satisfação: a mudança de vida e a reparação do dano cometido são exemplos de conversão por parte de quem busca o confessionário. Naturalmente, cada penitente, para alcançar sua satisfação, precisa ser adaptado no tocante ao que foi realizado em desacordo mediante o pecado. Precisa que a satisfação seja remédio para o pecado em função da renovação de vida. Pode-se dizer que, daqui em diante, surge uma nova pessoa aberta à graça de Deus; Absolvição: o perdão é concedido por meio da absolvição. Deus, em sua bondade, busca ficar perto de seus filhos e filhas. A renovação da aliança acontece por sinais visíveis. Deus acolhe cada pessoa para ser reconduzida ao redil santificador. A Igreja, por sua vez, fica alegre com essa dádiva salvífica.[1]

Referências 

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Editora Nova Cultura Ltda., 1999.

ALVES, Gilberto Siqueira. O Padre Cícero na ‘Jerusalém’ do Cariri. Teresina-PI: Editora Nova Aliança, 2025.

Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

CNBB. Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil – 2026-2032. Brasília: Edições CNBB, 2026.

LEÃO XIV, Papa. Carta Encíclica: Magnifica Humanitas. Disponível em 15 de maio de 2026: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html. Acesso em: 10 jul. 2026.

MIRANDA, Mário de França. A salvação em Jesus Cristo: a doutrina da graça. Edições Loyola, 2004.

Ritual da Penitência. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2010.

SANTOS, Manoel Augusto. Curso sobre direção espiritual: elementos para aconselhamento pastoral e acompanhamento espiritual. São Paulo: Cultor de Livros, 2019.

Gilberto Siqueira Alves é Frade Capuchinho, Bacharelando em Direito, Especialista em Catequese, Docência do Ensino Superior, Gestão Escolar, Radialista, Escritor, Mediador e Conciliador Judicial. Exerce o ministério sacerdotal na Área Pastoral Nossa Senhora do Brasil – Região Episcopal Nossa Senhora da Conceição, Fortaleza-CE.


[1] Cf. Ritual da Penitência, n. 6, p. 14-16.

Respostas de 7

  1. Parabéns! Que Deus continue iluminando sua caminhada, concedendo-lhe sabedoria e inspiração para tocar muitos corações através de suas palavras. Deus o abençoe sempre!

  2. Parabéns pela publicação do seu artigo!!!. Que Deus continue usando sua vida e sua sabedoria para tocar corações e fortalecer a fé de muitas pessoas. Ler suas palavras foi um momento de grande edificação para mim. Agradecida pelo envio do excelente artigo. Foi como ganhar um grande prêmio da vida. Que Deus lhe abençoe sempre!!!.

  3. Obrigada por me enviar esse artigo tão pertinente a todos nós, cristãos!
    Que o Espírito Santo esteja sempre a injetar-lhe sabedoria para que o senhor partilhe conosco esses ensinamentos.

  4. Achei o texto do Sr Frei Gilberto muito rico, catequético e pastoralmente útil. Ele consegue apresentar a Confissão não como um “tribunal de condenação”, mas como encontro com a misericórdia de Deus, cura, reconciliação e retomada da vida de graça. Esse é, para mim, o grande mérito do artigo.

    Gostei especialmente quando ele aproxima a doutrina da realidade das pessoas: fala do orgulho, da autossuficiência, dos “pecados de estimação”, da necessidade de sermos escutados e até apresenta sugestões práticas para as igrejas — exame de consciência, Ato de Contrição disponível e orientação para quem vai se confessar. Isso torna o texto mais do que uma reflexão teórica: vira instrumento de evangelização.

    Também está bem fundamentado, citando Santo Agostinho, o Catecismo, o Ritual da Penitência, documentos da Igreja e outros autores. Para quem quer aprofundar, é um texto consistente. Ao mesmo tempo, para o público leigo comum, eu diria que ele poderia ser um pouco mais enxuto, porque há trechos bastante acadêmicos e períodos longos. A mensagem central é muito boa e talvez ganhasse ainda mais força se fosse apresentada de maneira mais direta.

    Só faria uma correção importante na parte final. O texto diz:

    “Os atos do penitente são: contrição, confissão, satisfação e a absolvição.”

    Tecnicamente, na doutrina católica, os atos próprios do penitente são contrição, confissão dos pecados e satisfação. A absolvição é dada pelo sacerdote, em nome de Cristo e da Igreja; portanto, não é propriamente um ato do penitente. Essa pequena correção deixaria o artigo ainda mais preciso.

    No conjunto, porém, considero uma reflexão muito oportuna para os nossos dias. Frei Gilberto toca num ponto fundamental: muita gente conhece a Confissão, mas se afastou dela por medo, vergonha, falta de catequese ou simplesmente por ter perdido a consciência do pecado. O artigo ajuda a compreender que confessar-se não é apenas contar erros; é reconhecer que precisamos de Deus e permitir que Ele nos recomece pela misericórdia.

    Eu resumiria o espírito do texto numa frase: “O confessionário não é o lugar onde Deus nos humilha; é o lugar onde, arrependidos, recuperamos a dignidade de filhos amados e perdoados.”

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