
Meus irmãos e minhas irmãs, ao nos aproximarmos da conclusão do mês vocacional, quero apresentar a vocês um exemplo luminoso e inspirador, bem próximo de nós, daqueles que, como afirma o capítulo quinto da Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, sobre a Igreja, cumprem bem a meta da vocação universal para a santidade, à qual toda a Igreja, Povo de Deus, Corpo Místico de Cristo, é chamada a buscar e a ser. Refiro-me ao Venerável Servo de Deus Dom Antônio de Almeida Lustosa, nosso segundo arcebispo, que está em processo de beatificação e canonização, e ao então jovem Padre Joaquim Colaço Dourado, presbítero de nossa Arquidiocese.
Era o ano de 1958. O jovem seminarista Joaquim Dourado, como era conhecido, foi acometido de uma grave insuficiência renal que, para a época, carecia de meios para ser superada, resultando na retirada de um rim e deixando-o com intensas limitações e um prazo de vida limitado. Isso o deixou altamente desolado, pois a data de sua ordenação diaconal e presbiteral já estava marcada, e acreditara que não conseguiria ser ordenado padre.
Dourado comunica a Dom Antônio de Almeida Lustosa, aquele que haveria de ordená-lo padre, o seu delicado estado de saúde. Por bondade divina, o então diácono Joaquim Colaço foi ordenado padre no dia 30 de novembro de 1958, por Dom Lustosa, na Capela do Seminário da Prainha.
Entretanto, a fragilidade de sua saúde não lhe permitia assumir encargos pastorais em paróquias. Assim sendo, foi chamado por Dom Lustosa para trabalhar e morar no Palácio Episcopal, hoje sede da Prefeitura de Fortaleza. Apreciemos esse diálogo:
Padre Dourado: Dom Antônio, eu estou submetido a uma dieta severa; é melhor que eu permaneça com minha família.
Dom Lustosa: Não te preocupes. Dona Maria, a cozinheira do palácio, fará a dieta e, se ela não conseguir, arranjo outra pessoa para fazê-la.
Padre Dourado: Dom Antônio, eu não posso subir escadas.
Dom Lustosa: Eu vou chamar o engenheiro da Arquidiocese para providenciar uma rampa. Servirá também para mim, pois estou velho.
Dessa maneira, Padre Dourado foi-se rendendo a tamanha caridade do arcebispo, convivendo com ele pelo período de mais de quatro anos, até o final de seu pastoreio em Fortaleza, no ano de 1963. Em vida, declarou inúmeras vezes que Dom Lustosa era um santo, afirmando, com muita ousadia, que era seu protetor.
Porém, essa conformação com tamanha caridade não foi tão fácil para o jovem presbítero. Certa noite, após o jantar, os dois se sentaram em um banco, durante o recreio dos oblatos (Instituto criado por Dom Lustosa), no Palácio Episcopal. Muito triste, desabafa ao arcebispo:
Padre Dourado: Dom Antônio, o senhor me ordenou, mas o que adiantou? Eu não posso fazer nada!
Serenamente, responde Dom Lustosa:
Dom Lustosa: Se eu soubesse que você celebraria apenas uma missa, mesmo assim eu teria ordenado.
Essa conversa com Dom Lustosa iluminou todo o ministério do Padre Dourado. Nos grandes momentos, emocionado, lembrava-se desse profundo e sereno diálogo. Certa vez, quando um irmão questionou que talvez ele ainda não estivesse em condições de presidir atos litúrgicos, confessou:
“Eu fico bem de saúde, a doença desaparece, quando começo a celebrar a missa.”
O pouco tempo de vida dado pelos médicos ao futuro padre resultou em 55 anos, 3 meses e 23 dias, chegando ele mesmo a afirmar que foi assim que o mistério de Deus nele se tornou história. Dom Lustosa faleceu em 1974, sendo sepultado na cripta da nossa Catedral, localizada no centro de Fortaleza, e Padre Dourado, em 2014.
Amados e amadas de Deus, a Igreja do Ceará é edificada com o testemunho vocacional resplandecente de tantos homens e mulheres que labutaram nestas terras. Nossa Arquidiocese de Fortaleza é abençoada, pois o dono da messe nunca deixou faltar operários. Mesmo com as adversidades que o mundo nos apresenta, mesmo que não entendamos, mesmo que nos sintamos indignos, aquele que nos chamou tem um plano de amor para cada um de nós e espera de nós uma resposta generosa.
E você, já ouviu falar sobre o Venerável Dom Lustosa? Já sabe qual é a vocação para a qual Deus te chama? Convido você, neste discernimento, a contemplar o exemplo de Dom Lustosa e a recorrer à intercessão deste homem de Deus que tanto amou nossa Arquidiocese. Por isso, reze conosco, a fim de alcançarmos, um dia, a sua beatificação e canonização:
“Dignai-vos, Senhor, aceitar a caminhada do nosso irmão Dom Antônio de Almeida Lustosa rumo ao altar. Ele, que em vida soube ser servo fiel, imolando-se no pastoreio das almas, ensina-nos hoje admiráveis exemplos de virtudes cristãs praticadas com tanto zelo sacerdotal. Concedei, Senhor nosso Pai, a graça que por sua intercessão vos pedimos. Amém!”
Por: Pedro Kaian, seminarista da Arquidiocese de Fortaleza
Para maiores informações, siga no Instagram: @veneraveldomlustosa
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II (1962-1965). Lumen Gentium. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2001. p. 101-197.
PADRE DOURADO, UMA MISSÃO DIVINA. Martins, Antonio Colaço; Lira, José Luís. 2. ed. Fortaleza: Editora APED, 2020.
DOM ANTÔNIO DE ALMEIDA LUSTOSA – UM DISCÍPULO DO MESTRE MANSO E HUMILDE. 2. ed. Recife: Gráfica Dom Bosco, 1992.