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Carta da Articulação das Pastorais Sociais, CEBs e Organismos da Arquidiocese de Fortaleza acerca da chacina das Cajazeiras e a violência crescente em nossa cidade, estado, país

Sábado, 27 de janeiro 2018, o dia amanheceu frio, chuvoso, e o sol não quis nascer. Talvez ele tenha sido o único a ter coragem de declarar luto oficial depois da madrugada sangrenta. O dia amanheceu retratando a dor, as lágrimas e tentando lavar o sangue de mais de uma dezena de pessoas, em especial jovens e mulheres que haviam sido assassinados na madrugada daquele dia.

O clima do dia retratava a dor de ser pobre e morar numa periferia que já é dizimada todos os dias com a morte moral e existencial vivenciada na negação diária de direitos essenciais previstos na Constituição do país, que gradualmente vêm sendo reduzidos ou eliminados no atual contexto político. Retratava também as lágrimas de desespero e indignação de uma população que clama por paz há anos, sedenta de vida e que só recebe morte. Quando vão entender que a paz não vem de armas, mas da construção de uma sociedade que usufrua dos seus direitos independentemente do nível social e do poder aquisitivo?

A água que caía, agia tentando limpar as marcas, assim como agem os governos dessa cidade e desse Estado que através do seu silêncio ensurdecedor tentam, em vão, dizer que nada está acontecendo, que tudo está sob controle, diante da sua responsabilidade de cuidar da população que mais precisa. Os governantes que aí estão para representar e garantir os direitos do povo, não tiveram coragem e muito menos a solidariedade em declarar, no mínimo, luto oficial e continuam a dar pão e circo para esquecer as bala se a dor. “Caso isolado” foi a única fala hipócrita! A quem querem enganar?

A esse respeito queremos também repudiar certo tipo de mídia que explora as violências cotidianas em seus programas policialescos para incitar a vingança e alimentar o senso comum que afirma: “bandido bom é bandido morto”, responsabilizando os direitos humanos pelo crescimento da violência. Onde estão os filhos destes que são tão frios diante dessa chacina? Certamente não estão entre os que morreram, pois se assim estivessem, esse trágico episódio estaria tomando outro rumo. Onde moram estes que não declaram luto? Provavelmente em nenhum território em que a bolha social da qualidade de vida não exista. Até quando o único grito que essa sociedade e esse governo vai dar é: crucifica-o, crucifica-o? Esses jovens, esse povo?

Para nós que assinamos esta carta a Chacina das Cajazeiras é mais uma triste oportunidade para reafirmar nosso compromisso com o povo pobre e sofredor. Queremos ao mesmo tempo aproveitar esta Campanha da Fraternidade cujo tema é “FRATERNIDADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA”, com o lema: “Em Cristo somos todos irmãos” (Mt23,8) para convocar os pastores de nossa Igreja com seus leigos e leigas a adaptar sua forma de evangelização às exigências do nosso tempo. Que os desafios sejam sempre urgências a serem enfrentadas, onde possamos como Igreja estar junto de quem sofre e espalhar o amor de Deus em forma de justiça, solidariedade e principalmente proximidade! Que todos e todas nós que fazemos a pastoral da Igreja tenhamos o cheiro das ovelhas, como diz o Papa Francisco. E não tenhamos medo de nos sujar no exercício do pastoreio.

Junto com nosso Deus escolhemos ficar ao lado dos pobres. Eles são os mais atingidos em todas as formas de violência. Estar ao lado dos pobres é promover ações que os ajudem a superar a violência hoje instalada. É realizar rodas de conversa, buscando pistas de superação da violência; é aproveitar a Campanha da Fraternidade 2018 que busca superar a violência para discutir políticas públicas que ajudem a defender a vida de todos e todas, principalmente das mulheres e jovens; é agir na prevenção, buscando meios para que nossa periferia tenha mais vida, através de meios de geração de emprego e renda, cultura e lazer, apoio às famílias vítimas da violência; buscar, através dos CAPS e CRASS/CREAS o atendimento psicológico e assistencial dessas famílias; realizar caminhadas e vigílias pela paz, buscando visibilidade das nossas ações, sensibilizar a sociedade pela empatia e o cuidado das pessoas, não apostar em mais violência para superar a violência. Não podemos ficar trancados em casa! Além disso, 2018 é um ano eleitoral. Vamos nos organizar para eleger políticos honestos que conosco queiram construir uma sociedade de paz, pautada na justiça e equidade para todos e todas!

Assinam esta carta:
Pastoral da Criança
Pastoral do Menor
Pastoral do Povo da Rua
Pastoral da Sobriedade
Pastoral Carcerária
Pastoral do Migrante
Pastoral da AIDS
Pastoral da Saúde
Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP
Pastoral Operária
Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza
Centro de Formação Terra do Sol – Curso de Verão
Centro de Estudos Bíblicos –CEBI-CE
Centro Magis Inaciano de Juventude
Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos –CDPD

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