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[PALAVRA DO PASTOR] Editorial – março de 2015: “Eu vim para servir” (cf. Mc 10, 45)

Com a Quaresma realiza-se mais uma vez na Igreja no Brasil a Campanha da Fraternidade. O tempo especial do chamado à conversão pascal em Cristo presta-se à proposta de renovação da vida humana pessoal e comunitária, o que leva aos horizontes de vida de toda a comunidade humana.

Com o tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e lema “Eu vim para servir” (cf. Mc 10, 45), a  Campanha da Fraternidade (CF) 2015 busca recordar a vocação e missão de todo o cristão e das comunidades de fé, a partir do diálogo e colaboração entre Igreja e Sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II.

O texto-base utilizado para auxiliar nas atividades da CF 2015 reflete sobre a dimensão da vida em sociedade que se baseia na convivência coletiva, com leis e normas de condutas, organizada por critérios e, principalmente, com entidades que “cuidam do bem-estar daqueles que convivem”.

Partindo do mesmo Evangelho proposto por Jesus, pelos seus ensinamentos e pelo próprio exemplo, somos chamados à disposição de “servir”, expressão de fraternidade e solidariedade humana universal. Assim o tema tocará os relacionamentos interpessoais e da Igreja como comunidade instituida por Jesus Cristo para a missão do Reino de Deus a que se destina toda a humanidade.

Por que servir?

Está inscrito no próprio ser humano o ser com os outros, o ser para os outros. E de Deus mesmo, à imagem de quem o ser humano foi criado, toma este ser voltado para a convivência e a mútua dedicação na realização da vida. E o próprio Deus se mostrar servidor em sua criação, tudo concorrendo para a vida de suas criaturas: Deus que cria e providencia.

Os seres da Natureza estão em estreita relação uns com os outros e servem uns aos outros na dinâmica da vida. Mesmo se se manifestam também desvios e ameaças à vida e ao bem comum – não podemos negar uma luta constante entre os seres – o que mais ainda se manifesta nos relacionamentos dos mais desenvolvidos, os seres humanos.

Deus que tudo criou para a vida e não para a morte, não é indiferente à sorte de sua criação e mostra a sua dedicação pelo bem de todos, especialmente dos seres humanos no Mistério da Redenção do mundo pela Incarnação do Verbo Eterno, o Filho de Deus.

Jesus, Deus feito homem entre os homens vem para manifestar a renovação da obra divina e se faz, em meio à humanidade ferida pelo egoísmo e dominação, servidor de todos “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Este serviço leva a dar a própria vida pelo bem comum universal da humanidade e por ela de toda a criação. O serviço, expressão concreta do Amor que tudo redime, faz verdadeira revolução nos relacionamentos humanos: do aproveitar-se para o servir, do utilizar-se para o ser útil ao bem do outro, do tirar a vida em próprio proveito ao dar a vida pelo proveito de todos. “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar a vida pela salvação de muitos”. (Mc 10, 45.) Assim se apresenta Jesus em sua relação com a humanidade, no objetivo de sua vida e missão.

Esta sua obra de redenção realizada plenamente em doação de morte e ressurreição é transmitida a toda a humanidade. Ele faz de sua Igreja – os reunidos em seu nome – o sinal e instrumento do seu serviço redentor.

A Igreja em tempo de graça e salvação quer ir mais fundo em sua vida, renovada na graça do Senhor, sendo ela mesma a servidora da humanidade. Em Quaresma e Campanha de Fraternidade coloca-se diante da conversão e missão na disposição de maior empenhor no seguimento do Senhor para ser servidora da vida em plenitude para todos: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo… Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.” (Mt 5, 14-16.)

Vencendo toda barreira de indiferença ou autosuficiência, a Igreja se vê como dom de Deus para o mundo, dom de Deus na fragilidade humana. Assim, reconhecendo suas limitações sabe também dos dons que carrega para o bem comum de toda pessoa humana. Ela vive para a sociedade humana, como dom do Reino de Deus, germe e instrumento na construção de um mundo mais plenamente humano e divino, onde a real felicidade de todos é possível pela graça do Amor de Deus. Ela leva o Evangelho da Vida, o Reino de Deus para o pleno bem da humanidade, a toda criatura.

Igreja e sociedade: relacionamento indispensável que se realizará no serviço, no diálogo, na cooperação solidária. Assim a mesma Igreja se vê em sua relação com a sociedade: “A Igreja pensa que, por meio de cada um de seus membros e por toda a sua comunidade, pode ajudar muito a tornar mais humana a família humana e a sua história. … o cristão que descuida dos seus deveres temporais falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna.” (GS 40)

Com o Papa Francisco a Igreja hoje é chamada com empenho para com os pobres e sofredores, os que estão nas “periferias existenciais”, onde a humanidade se mostra mais fragilizada. A este clamor com toda a sociedade humana quer responder para a plena vida e dignidade humana das pessoas e sua convivência. Assim se constrói uma sociedade justa e fraterna, pacífica e solidária… ela já sinaliza o que ainda é muito mais a meta divino-humana: o Reino de Deus – a vida plena para todos.

+ José Antonio Aparecido Tosi Marques

Arcebispo Metropolitano de Fortaleza

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