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Dom Leonardo trata de temas relevantes para o Brasil em entrevista à Folha de São Paulo

Secretário geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, conversou, nesta quarta-feira, 18 de julho, com o jornalista da Folha de São Paulo e da TV UOL, Fernando Guimarães sobre vários assuntos relevantes do momento político e social que o Brasil se encontra. Confira a íntegra da entrevista que foi publicada nesta quinta-feira pelo jornal paulista.

Leia abaixo transcrição da entrevista.

Narração de abertura: Dom Leonardo Ulrich Steiner tem 61 anos. É o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, e também é bispo auxiliar de Brasília. Dom Leonardo nasceu em Forquilhinha, em Santa Catarina. Entrou para a Igreja Católica em 1972 na Ordem dos Frades Menores, fundada por São Francisco de Assis. Em 2005, dom Leonardo substituiu dom Pedro Casaldáliga como bispo de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Em 2011 foi eleito secretário-geral da CNBB e mudou-se para Brasília. Cabe a ele se pronunciar em nome da entidade. Em 2012, por conta das eleições, dom Leonardo deverá emitir opiniões dos bispos sobre temas importantes para o mundo da política.

Folha/UOL: Olá internauta. Bem-vindo a mais um “Poder e Política – Entrevista”.

Este programa é uma realização do jornal Folha de S.Paulo e do portal UOL. E a gravação é sempre realizada aqui no estúdio do Grupo Folha em Brasília. O entrevistado desta edição do Poder e Política é dom Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB.

Olá, Dom Leonardo. Muito obrigado pela sua presença. Eu começo perguntando sobre o dado do censo que foi divulgado recentemente a respeito da perda de fiéis da Igreja Católica na última década. A Igreja Católica perdeu, segundo o censo, 1 milhão e 670 mil fiéis do ano 2000 até 2010. Nesse período, em contrapartida, as igrejas evangélicas ganharam, aproximadamente, 16 milhões de novos fiéis. Como o sr. e a CNBB avaliam esses dados?

Dom Leonardo: Em primeiro lugar, obrigado pelo convite e pela oportunidade de estar aqui com vocês e, ao mesmo tempo, estar em contato com tantos internautas. Que Deus abençoe a todos vocês, o trabalho e o serviço que prestam à nossa sociedade, ao Brasil.

Nós, em primeiro lugar, nos questionamos sobre o método usado [pelo censo]. Nós não sabemos o método da pesquisa e isso é muito importante para nós. Isso não quer dizer que não nos preocupamos com os dados que chegaram às nossas mãos e que foram publicados. Os dados são importantes. Os dados mostram uma realidade. Só gostaríamos de poder ter mais elementos para podermos fazer uma boa análise. Que haja uma perda de fiéis não é uma novidade. Se bem que tenha diminuído muito, tenha diminuído muito as saídas. Por outro lado, nós sabemos também que muitos que têm deixado a Igreja Católica não são pessoas ativas dentro da Igreja Católica. Não são aquelas pessoas que participam ativamente das nossas comunidades, que participam das nossas celebrações, que participam dos serviços dentro da Igreja. Por outro lado, nós temos também o dado nosso, da nossa pesquisa.

Folha/UOL: Qual é ele?

Dom Leonardo: Do anuário católico. Que ele tem mostrado o crescimento do número de paróquias. Você só aumenta paróquias se há um aumento de fiéis. Nós temos um dado do IBGE em relação à população brasileira. Mas o anuário católico mostra que nós temos também um aumento no número de fiéis ligado aos filhos que vêm, eles são batizados, eles participam da vida da Igreja. Não só no número de paróquias, mas nós temos um aumento de dioceses. Nós fomos de 18 mil, em torno de 18 mil sacerdotes. E hoje nós temos em torno de 22 mil.

Folha/UOL: De quando para quando?

Dom Leonardo: Isso são agora, nos últimos quatro anos, essa mudança. Ela é muito significativa.

Folha/UOL: De 18 mil para 22 mil?

Dom Leonardo: 22 mil nos últimos dez anos. Esse é um dado muito significativo. Então, o que, digamos assim, preocupa mais a CNBB e a Igreja Católica é o número de pessoas que se dizem sem religião. Isso preocupa mais. Isso porque alguém que se diz sem religião, ele tem outra perspectiva, tem outro horizonte de leitura da própria existência.

E depois, também, a migração que nós sentimos de uma igreja evangélica para outra, porque esse fenômeno não é só da Igreja Católica, mas de todas as igrejas chamadas “históricas”. Esse fenômeno de saída. Mas, eu creio que isso tudo tem nos levado também a um espírito missionário muito maior dentro da própria Igreja Católica.

Folha/UOL: No caso do censo do IBGE, o sr. acredita que os números, pelo que o sr. está dizendo, possam não ser exatamente esses, é isso?

Dom Leonardo: Porque não são todas as residências visitadas. Nós, da CNBB, não fomos visitados. Então, nós sabemos que se visita um determinado número de residência e depois se faz um determinado cálculo. Então esse dado nós gostaríamos de ter em mãos para podermos ter, assim, isso até nos ajudaria muito na avaliação desses dados e mesmo, também, de como nós… refletirmos, de como estudarmos e, mesmo talvez, como projetar alguma ação evangelizadora.

Folha/UOL: Mas o sr. concebe que, de fato, deve ter ocorrido uma redução do número de fiéis da Igreja Católica nesses últimos dez anos?

Dom Leonardo: Em relação à população brasileira, sim.

Folha/UOL: Foi a primeira vez a rigor… Porque o censo, é claro que sempre há algumas residências que não são visitadas, é uma pesquisa, é um levantamento muito amplo. Foi a primeira vez que o censo apontou uma queda no número de católicos no país. Então, em certa medida, tem uma metodologia que vem sendo seguida há décadas e a expectativa, segundo os dados projetados pelo censo, é que talvez em 20 ou 30 anos a maioria dos brasileiros tenha preferência pelas religiões evangélicas. O sr. acredita que essa projeção é correta?

Dom Leonardo: Não acredito que isso aconteça. Nós teremos o fenômeno, que nós chamamos, muitas vezes, de um fenômeno europeu. Nós temos o fenômeno que alcança as grandes cidades no Brasil que é o número crescente de pessoas que se dizem sem religião. Esse é um fenômeno, na Europa, marcante. A Igreja lá tem refletido e tentado enfrentar essa questão. E nós, certamente, no Brasil, cresceremos nessa linha. Mas eu sinto também que a CNBB, com as suas diretrizes de evangelização, foi a primeira conferência episcopal a pensar uma estratégia, pensar diretrizes, pensar em um plano de pastoral. Ela também saberá enfrentar esse momento e nós temos tido, tivemos agora o terceiro Congresso Missionário em Palmas, semana passada, e foi impressionante a participação dos leigos. Hoje, nós temos no Brasil, graças à Deus, uma igreja onde os leigos são muitos ativos. E os leigos se sentem protagonistas como missionários, como missionárias, as visitas às famílias, a leitura da palavra de Deus. Então não creio que, no futuro, a maioria seja evangélica. Nós chegaremos a uma estabilidade. Mas o fenômeno europeu também chegará ao Brasil. Nós sabemos disso.

Folha/UOL: Nos números aqui, de acordo sempre com o censo do IBGE, em 1980, 89% dos brasileiros se diziam católicos. Hoje seriam 64%. E os evangélicos hoje estão, segundo censo sempre, com 22%. O sr. acredita que, então, o sr. acabou de me dizer não deve haver é esse avanço daqueles que tem preferência pelas denominações evangélicas? Acredita que agora há uma estabilização?

Dom Leonardo: Nem mesmo porque, também, os dados tem mostrado que algumas dessas igrejas evangélicas já tem perdido um grande número de pessoas também.

Folha/UOL: Quais, o sr. diria, são as medidas principais que a Igreja Católica toma, ou deveria tomar, para evitar que ocorra uma perda maior de fiéis?

Dom Leonardo: A preocupação principal não deveria ser em termos de perda, de número. Nós nos preocupamos não apenas com a perda de número, mas com perda de pessoas. Quer dizer, se numa família falta alguém à mesa, nós sentimos falta. Eu creio que esse elemento dentro da Igreja Católica deveria pesar muito. Nós batizamos. Eles fizeram parte da nossa comunidade, ao menos pelo batismo, muitas vezes também pela crisma e, depois, deixaram a mesa da família onde nasceram. Então isso nos preocupa. Mas eu penso que as últimas diretrizes da ação evangelizadora já indicam um pouco o caminho que nós deveríamos percorrer. Em primeiro lugar, lá nós elencamos cinco urgências e a primeira urgência colocada é que nós deveríamos ser uma igreja mais missionária. Uma igreja que não pode mais ficar só esperando os seus fiéis. Uma igreja que precisa sair. Uma igreja que precisa ir ao encontro das pessoas. Uma igreja que visita as famílias, Uma igreja que vai ao encontro das pessoas nos hospitais, nas prisões. Uma igreja cada vez mais envolvida também com as pessoas de rua. As pastorais sociais terem mais força do que já tem. As nossas pastorais sociais tem uma força muito grande, mas creio que ainda poderíamos ser muito mais engajados nesse sentido. E um elemento muito importante é, segundo a urgência que é ali colocada, é a iniciação a vida cristã. Eu creio que nós, como Igreja Católica, preparávamos as pessoas para a primeira eucaristia, para a crisma. A tônica colocada de não prepararmos para uma iniciação à vida sacramental, mas à vida cristã. O que significa, realmente, viver como viveu Jesus Cristo. O que significa dar testemunho de Jesus Cristo. O que significa anunciar o Reino de Deus. Eu creio que aqui nós temos dois elementos muito importantes que nos ajudarão no futuro a sermos uma igreja mais ativa e também, até diria assim, conforme nós estamos celebrando os 50 anos do Concílio, mas uma igreja, conforme o Concílio, muito atuante dentro da realidade social em que nós vivemos.

Folha/UOL: Um aspecto muito visível da Igreja Católica para a população geral tem sido a atuação dos chamados “padres cantores” ou “artistas” como Fábio de Melo, da Ordem do Sagrado Coração, Marcelo Rossi, da Renovação Carismática. O sr. acha que eles contribuem para a inserção da Igreja Católica na sociedade e, se sim, como?

Dom Leonardo: Eu não diria que seria uma inserção na sociedade. Ajuda a visibilizar, digamos assim, a Igreja Católica. Ajuda a mostrar o rosto da Igreja Católica no sentido de que um padre também pode ser cantor e, através do canto, levar a mensagem do Evangelho, testemunhar o Evangelho. Os padres, que às vezes até chamamos de “padres midiáticos”, eles ajudam a evangelizar celebrando nas comunidades. Muitos dos cantos deles são também cantados nas nossas comunidades. E também, digamos assim, certos momentos da Igreja em que existe um grande número de pessoas reunidas. Eu não quero usar a palavra massa porque ela não é conveniente nesse caso, porque é sempre uma assembleia. Quando é uma missa é sempre uma assembleia que se reúne, não é uma massa, não é um aglomerado, apenas, de pessoas. Isso também ajuda. São manifestações públicas que nós somos uma Igreja. Uma manifestação de um número maior de pessoas, como no caso aqui de Brasília que fizemos no Corpus Christi, na festa de Nossa Senhora de Aparecida. Isso visibiliza um pouco e também nós sentimos que traz um ânimo para as pessoas que pertencem à Igreja Católica.

Folha/UOL: Um aspecto do ponto de vista comportamental, social, sempre mencionado a respeito da Igreja Católica é que a sociedade vem demandando atitudes mais liberais e a Igreja Católica tem seus dogmas, suas crenças, suas posições e não abre mão delas. O sr. imagina que pode haver flexibilização no futuro ou a Igreja Católica vai se manter ainda por muitos anos como sempre esteve a respeito de aborto, uso de contraceptivos e, por exemplo, casamento entre pessoas do mesmo sexo?

Dom Leonardo: A Igreja sempre tem procurado compreender a sua ação a partir do Evangelho. A Igreja, e a própria CNBB, não tira da sua própria cabeça alguns elementos. Ela se deixa inspirar no Evangelho. O Evangelho sempre será o Evangelho da vida. Então, assuntos como, por exemplo, o aborto e a eutanásia não têm como nós voltarmos atrás e fazermos concessões. Nós temos a nítida sensação que com o passar do tempo, todas essas questões que devagar querem fazer entrar, fazem com que o ser humano se torne descartável. Então a finitude humana não quer mais ser abraçada. A finitude humana significa também ter um filho excepcional, [o que] traz dificuldades. Então nós estamos muitas vezes assim, na propensão hoje, do descarte de tudo aquilo que não é do meu agrado, que não é da minha concepção, que não facilita, digamos assim, as minhas relações e, com isso, também, muitas vezes descartar essas dificuldades, essa finitude humana nos leva a viver de uma maneira que não matura. Nós sabemos pelo cristianismo e nós pregamos também Jesus Cristo crucificado e ressuscitado que a finitude humana que nos matura como pessoas. Os embates da vida que nos maturam como pessoas. Não é uma vida que vamos levando de qualquer jeito que nos matura. Então, esse debate, apesar de muitas vezes sermos acusados de não sermos modernos o suficiente, eu muitas vezes me pergunto: Que modernismo é esse que começa a descartar a pessoa humana, especialmente onde existe mais limite?

Folha/UOL: Tem um aspecto específico que é com relação a contraceptivos, que antes eram só contraceptivos e hoje também são instrumentos de saúde pública, sobretudo para grupos de risco de contrair Aids. Nesses casos dos contraceptivos qual é a posição atual da Igreja Católica aqui no Brasil?

Dom Leonardo: Nós temos uma declaração muito importante do santo padre a respeito disso, falando da necessidade de saber distinguir de quando realmente existe o que você chama de grupo de risco. Então esses contraceptivos seriam possíveis. O que a Igreja sempre defende é que não se pode sempre usar contraceptivos sem mais e sem menos porque as relações, elas precisam sempre estar abertas à vida. Sempre abertas à vida. E depois também muitas vezes os contraceptivos são colocados em relação a uma não facilitação das relações, sejam as relações mais íntimas, que são as relações mais afetivas, como são as relações sexuais. Elas também precisam de respeito, elas precisam também do seu tempo. Então muitas vezes se quer facilitar o prazer simplesmente pelo prazer e às vezes os contraceptivos vão pouquinho nessa linha. Mas em relação aos grupos de risco, no sentido do cuidado da pessoa humana, tem uma declaração do santo padre muito interessante. Até se fez um alarde nos meios de comunicação dizendo que o papa agora seria a favor. Mas era justamente colocando essa questão da vida humana de novo, da saúde humana, da pessoa humana como um todo.

Folha/UOL: Queria falar um pouco de política com o sr. como tem sido a relação da CNBB, da Igreja Católica, com a presidente Dilma Rousseff?

Dom Leonardo: Uma relação, diria, normal. Uma relação de muita liberdade. A presidente tem nos dado muita liberdade de dizer o que pensamos. Isso é sinal de maturidade. A CNBB não tem se furtado em levar ao governo os problemas. Também não tem se furtado de dizer o que pensa através das notas. Mas também, na interlocução do governo, nós temos procurado levar a questão, por exemplo, a questão indígena, a questão da violência, a questão em relação às famílias, a questão dos jovens. Mas a presidente tem nos dado muita liberdade e creio que existe um respeito. E também da própria presidente nós sentimos um desejo de nos ouvir. Eu creio que é uma relação de respeito, uma relação madura.

Folha/UOL: O sr. assumiu seu posto na CNBB recentemente, em 2011. Mas seria possível comparar como era a relação da Igreja Católica com governos e presidentes anteriores? Se melhorou, piorou ou está igual?

Dom Leonardo: Eu não saberia fazer essa avaliação. Mas, a sensação que eu tenho… Também não sou bispo há tempo, né? Eu sou bispo, agora, há oito anos. A sensação que eu tenho é que os governos sempre procuraram ouvir a CNBB. E a CNBB nunca se furtou de levar ao governo as questões das populações, sejam elas indígenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos. Mas há outras questões também sociais que dizem a respeito da população brasileira. E às vezes até com notas que alguns consideram um pouco duras. Mas faz parte. Eu tenho a impressão que no período que estamos vivendo de democracia, os governos tem procurado ouvir. Naturalmente, nós sentimos também, não quer dizer isso no primeiro escalão, mas temos sentido também alguma dificuldade de relação, dada a questão que se chama, tem se dado o nome de “o Estado laico”. Dizer que a Igreja não deve interferir em determinados…

Folha/UOL: O sr. tem sentido uma dificuldade de que ordem?

Dom Leonardo: Às vezes, a nível, por exemplo, de participação nossa nos conselhos. O sr. sabe que a CNBB participa em diversos conselhos, tem seus representantes, por exemplo, na [área da] saúde nós temos representante, a CNBB tem representante. E nem sempre aquilo que nós não estamos lá para fazer uma pregação, digamos assim. A nossa participação como CNBB, é claro, a partir dos princípios do Evangelho, é ajudarmos a melhorar a saúde da população, melhorar a segurança da população, darmos uma assistência maior.

Folha/UOL: Mas há algum impedimento para que a CNBB participe?

Dom Leonardo: Existe uma espécie de resistência, sim. De que não é muito tarefa religiosa ou uma tarefa da Igreja.

Folha/UOL: Isso, por parte, o sr. está dizendo, o sr. citou o caso da saúde. No caso do Ministério da Saúde, seria?

Dom Leonardo: Não. No Ministério da Saúde, graças a Deus, somos muito bem recebidos.

Folha/UOL: Seriam em alguns conselhos, é isso?

Dom Leonardo: Em um ou outro conselho.

Folha/UOL: O sr. poderia citar especificamente?

Dom Leonardo: Isso não é muito conveniente [risos]..

Folha/UOL: Mas tem havido isso?

Dom Leonardo: Eu sinto isso. Eu sinto uma certa resistência, sim.

Folha/UOL: Isso seria o quê? Do governo como um todo?

Dom Leonardo: Não, não sinto que seja do governo porque a interlocução que temos tido com os srs. ministros tem sido muito positiva. Nenhum ministro se recusou a me receber, por exemplo, quando eu pedi audiência. E mesmo nós temos ministros que têm vindo aos encontros, às reuniões da CNBB para debater.

Folha/UOL: Será que a CNBB não deixou passar muito tempo em relação a ter uma presença mais marcante na política. Por que eu pergunto isso? Algumas igrejas apressaram-se e hoje têm partidos que são muito relacionados a elas, sobretudo as igrejas evangélicas. É notória, por exemplo, a ligação da Igreja Universal do Reino de Deus com o partido PRB [Partido Republicano Brasileiro], uma relação muito próxima, são muito ligados. Agora apareceu um novo partido, o 30º que é o Partido Ecológico Nacional e que também tem uma relação próxima com uma igreja. A CNBB e Igreja Católica deveriam ter uma atuação mais direta na política, na sua opinião?

Dom Leonardo: Nós temos uma atuação muito política. Nós temos na CNBB, inclusive, uma Escola de Fé e Política para prepararmos os leigos. Agora, a CNBB nunca vai querer fundar um partido. Nós acreditamos que nossos irmãos que professam o Evangelho, que aceitam o Evangelho e que vivem na Igreja Católica, eles serão as pessoas que podem levar ao Congresso Nacional e mesmo em outras instâncias no Judiciário, por exemplo. Também, nós temos muitas pessoas que são da Igreja Católica e defendem os princípios. Nós pensamos muito mais nesse tipo de presença do que de partido político. Partido político começa muitas vezes a reivindicar para si alguns elementos. Eu penso que o Evangelho é muito mais abrangente do que um partido político. A Igreja Católica é muito mais abrangente. Ela poderia, como partido político, começar a trabalhar em benefício de si mesma ou CNBB em benefício de si mesma, direito para si mesma.

Folha/UOL: O sr. acha que isso ocorre, talvez, com esses outros partidos?

Dom Leonardo: Eu não poderia fazer essa análise, mas às vezes, dada uma ou outra declaração, temos um pouco essa impressão.

Folha/UOL: Recentemente houve uma polêmica sobre uma proposta que o Governo teria de vetar o aluguel de espaço em emissoras de televisão. Esse aluguel de espaço que é, em geral, muito usado por várias igrejas. As igrejas evangélicas protestaram. Para a Igreja Católica faria alguma diferença?

Dom Leonardo: Nós não protestamos assim como fizeram as igrejas evangélicas, mas também demonstramos a nossa posição. Quer dizer, nós temos essas emissoras, elas são estatais, mas nós não podemos esquecer que elas são da sociedade. O que é um Estado? O Estado, pelo Estado, não existe. O Estado só existe porque existem pessoas. Quer dizer, o Estado existe porque existe uma população. Então essa vontade de querer garantir ao Estado está garantindo a quem, de novo? Está, às vezes, a um determinado grupo que pensa o Estado daquela forma. Então, nesse sentido que nós também acabamos nos pronunciando, nos manifestando não assim, publicamente, com essa veemência toda.

Folha/UOL: Dom Leonardo, e essas eleições municipais deste ano 2012 que ocorrem agora em outubro? A CNBB planeja se manifestar de alguma forma a respeito de como os seus fiéis devem atuar nessas eleições?

Dom Leonardo: Nós já nos manifestamos na nossa assembleia celebrada em Aparecida [SP]. Nós emitimos uma nota até bastante longa e temos também um pequeno subsídio de orientação que não foi publicado diretamente pela CNBB mas pela Escola de Fé e Política da CNBB.

Folha/UOL: Como o sr. resumiria a diretriz da CNBB a respeito das eleições municipais deste ano?

Dom Leonardo: Votem em ficha limpa. Votem em ficha limpa. Foi uma longa batalha, na qual a CNBB se engajou, a Igreja toda se engajou, tantos seguimentos da sociedade se engajaram. Diversos organismos se engajaram. Nós não podemos voltar atrás, nós sabemos que as eleições municipais, elas são sempre mais tensas, são mais localizadas, elas são naquele âmbito mais familiar, mais próximo. Então normalmente as eleições municipais elas são mais disputadas, são mais tensas e também por nossa parte existe o desejo de darmos uma orientação da boa escolha daqueles que hão de cuidar do município, hão de cuidar da nossa cidade.

Folha/UOL: Embora sejam eleições municipais, às vezes aparecem temas nacionais nessas eleições. Temas como, por exemplo, surgiram na eleição passada, que era mais ampla: aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo devem fazer parte também do debate das eleições municipais?

Dom Leonardo: Deve fazer parte do debate das eleições municipais sempre aquilo que diz respeito à pessoa humana, ao direito da pessoa humana, ao cuidado da pessoa humana. Isso sempre deve entrar. Deve entrar no debate também o respeito à pessoa humana, então [deve entrar] a questão da corrupção. A questão da ficha limpa. Inclusive, é um desejo do Tribunal Eleitoral [do Tribunal Superior Eleitoral] fazermos um trabalho em conjunto neste ano alertando a população para que realmente vote bem, não deixe comprar o seu voto, que é um elemento importante, não deixar comprar o voto. Não vender o voto. [Não] vender a dignidade. Esses elementos, porque dizem respeito à pessoa humana, sempre terão que entrar no debate [das eleições].

Folha/UOL: É legítimo que um candidato a prefeito de uma cidade também apresente como tema de discussão, se ele ou seus adversários, têm posições a respeito de liberalizar o aborto, por exemplo?

Dom Leonardo: Sempre o debate ele tem que ser livre. As pessoas podem e devem ter o direito de expressar suas concepções. O que infelizmente acontece muitas vezes é que os candidatos realmente não expressam suas posições e concepções, o que não ajuda o eleitor. O que não ajuda o eleitor. Ajuda muito o eleitor quando ele coloca as questões, se ele coloca a questão do aborto, se ele coloca a questão da corrupção. Mas não só para o momento para angariar voto, mas como uma questão realmente política, como o cuidado pela cidade… A palavra “polis” do grego, política. Esse cuidado pela população. Então eu penso que seria muito positivo que os candidatos colocassem também as suas ideias quanto a isso, e os eleitores, ao menos os católicos, sabem [quais são] as orientações dadas pelos bispos, pela Igreja Católica.

Folha/UOL: Em 2010 foi um debate muito acalorado a respeito de temas como esse na disputa presidencial. A então candidata Dilma Rousseff, agora presidente da República, se manifestou, fez compromissos com grupos religiosos, inclusive com a Igreja Católica. Ao longo do governo dela agora, que já tem mais de um ano e meio, alguns grupos religiosos acham que ela não está seguindo exatamente aquilo que prometeu durante a campanha. Qual é a sua opinião?

Dom Leonardo: Abertamente, não tem aparecido essa questão. Ela [a presidente] não tem se pronunciado abertamente. Naturalmente, a CNBB estranhou quando foi nomeada a ministra para os…

Folha/UOL: Secretaria Especial das Mulheres. Eleonora Menicucci.

Dom Leonardo: Isso. Nós estranhamos. Houve, inclusive, manifestação de um ou outro bispo. Nós, como CNBB, nos manifestamos através de uma carta dirigida à presidente. Em público, não tem aparecido. O que tem aparecido é o que foi decidido agora pelo Supremo [Supremo Tribunal Federal] da questão dos anencéfalos. E está parecendo essa questão em relação ao Código Penal. Então nós continuaremos a nos manifestar como CNBB como sempre nos manifestamos a favor da vida. No futuro, muito no futuro, certamente haverão de reconhecer de que a CNBB defendeu aquilo que é de mais precioso: a pessoa humana desde o início até ao fim.

Folha/UOL: Sobre a atuação específica da presidente Dilma Rousseff. Ela deveria ser mais proativa a respeito desses temas e ter uma posição mais conhecida? Uma ação mais específica?

Dom Leonardo: Talvez nós gostaríamos que assim fosse. Agora, não sei se a tarefa de alguém que hoje está à frente da nação brasileira, como governo, como presidente está se manifestando muito a respeito porque ela é presidente de toda uma população. Ela é a presidente do Brasil. E nós sabemos da diversidade de pensamentos que existem. Então, o que nós podemos dizer das conversas que tivemos com ela é de um respeito muito grande pela vida. E nós sabemos também que, internamente, do governo também existem as tensões que são normais.

Folha/UOL: O sr. mencionou a decisão recente do Supremo Tribunal Federal autorizando a prática do aborto quando há comprovação de fetos anencéfalos. O Supremo Tribunal Federal tomou uma boa decisão nesse caso?

Dom Leonardo: Nós tivemos a nítida sensação de que começamos a descartar a pessoa humana. E creio que também o enfoque dado não foi um enfoque muito coerente. Por exemplo, de achar que essas crianças já estão mortas no útero materno. Naturalmente, quando a criança morreu no útero materno nós não estamos falando em aborto. Nós só estamos falando em aborto quando a criança é viva, ela está viva. E nós temos experiências muito interessantes de que depois mesmo do parto ainda sobrevivem um determinado tempo. Nós já nos pronunciamos a esse respeito e, inclusive, nos manifestamos em nota e também já estivemos com alguns dos ministros onde depois conversamos com muita liberdade sobre o assunto, com muito respeito.

Folha/UOL: Código florestal: o governo tem, de acordo com a sua compreensão, atuado de maneira correta na condução da aprovação do Código Florestal no Congresso?

Dom Leonardo: Pessoalmente, eu esperava mais do governo. Naturalmente, o jogo político no Congresso não é simples. As forças que ali dentro estão… Não é tão simples. Mas nós, como, CNBB nós gostaríamos que, realmente, nós tivéssemos um Código Florestal.

Código significa um modo de relacionamento com a natureza. Nós teremos leis, mas elas não garantem o nosso futuro. E o pior, no meu modo de ver, não garantem uma relação nova, efetiva, equilibrada com a natureza. Então, a sensação que temos agora, ainda existem muitas discussões, de que provavelmente a proposta do Governo, que foi uma proposta, assim, tentando manter um determinado equilíbrio deve passar, ao menos no Senado. Mas, o Código como está, no meu modo pessoal de ver, agora eu não quero fazer nenhuma afirmação em nome da CNBB, é insuficiente para o nosso futuro.

Folha/UOL: No ano que vem, haverá Jornada Mundial da Juventude, que será no Rio de Janeiro com a presença, inclusive, do Papa Bento XVI. O Brasil está preparado para receber a Jornada Mundial da Juventude, do ponto de vista da infraestrutura do Rio para receber um evento desse porte?

Dom Leonardo: Ainda não está preparada.

Folha/UOL: O que está faltando?

Dom Leonardo: Está faltando… Agora já temos a decisão de onde será a vigília com o santo padre e também a missa com o santo padre. Já está decidido. Precisa agora é criar toda a infraestrutura do local. Já começamos agora no mês de julho as inscrições. Os grupos já podem se inscrever. Só podem se inscrever grupos vindos dos outros países e também do Brasil. O que já está bastante bem organizado é a peregrinação da cruz, que também faz parte do ícone de Nossa Senhora, que faz parte da jornada. Já está caminhando, já há meses, desde o ano passado. Caminhando bastante bem. Bastante bem não, está caminhando muito bem. O Rio de Janeiro e a Arquidiocese do Rio de Janeiro têm feito um esforço muito grande de organizar no Rio de Janeiro porque será organização de hospedagem, de recepção, de transporte. O diálogo entre a diocese do Rio de Janeiro, a Arquidiocese do Rio, o governo estadual e a prefeitura caminha bem. Também com o Governo Federal. Mas ainda existem alguns gargalos, principalmente em relação à infraestrutura, por exemplo, do meio de transporte do Rio até Santa Cruz, onde será a celebração. Naturalmente os jovens andarão alguns quilômetros porque faz parte. A ideia é, realmente, de ser uma peregrinação. Não só uma festa, um encontro. Creio que estamos caminhando muito bem, mas ainda faltam alguns elementos. Mas nós ainda temos um tempo.

Folha/UOL: Isso depende dos governos locais do Rio e da prefeitura do Rio, é isso?

Dom Leonardo: Mas também de ajuda do Governo Federal. Nós sabemos que para Olimpíada e Copa do Mundo nenhum governo estadual ou municipal dará conta, assim também [é] em relação à Jornada.

Folha/UOL: Dom Leonardo Steiner, muito obrigado pela sua entrevista à Folha de S.Paulo e ao UOL.

Dom Leonardo: Eu que agradeço a oportunidade e um bom trabalho.

CNBB

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