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“Iniciação à vida cristã e o catecumenato antigo”, reflexão do bispo de Marabá (PA)

“Iniciação à vida cristã e o catecumenato antigo”, reflexão do bispo de Marabá (PA)

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA

Iniciação à vida cristã e o catecumenato antigo

Introdução ao tema
O tema da qüinquagésima quinta assembleia geral da CNNB debaterá sobre a Iniciação à vida cristã. É um tema importante à vida cristã, pois trata da pessoa ser introduzida aos mistérios do Senhor Jesus Cristo, à vida eclesial pela Palavra de Deus, aos sacramentos e o testemunho de vida na família, na comunidade e na sociedade. Este tema tem ligações com a vida eclesial dos primeiros séculos que na época era percebido como catecumenato antigo. É importante fazer uma análise dessa prática para viver melhor o processo de iniciação à vida cristã, para correspondermos melhor à nossa vida com o evangelho de Jesus Cristo na comunidade.

O catecumenato antigo esteve presente entre os séculos terceiro sendo uma rica e original instituição pastoral graças à qual a Igreja expressou a sua vocação missionária, exercitou a sua função materna em acolher e formar com seriedade e serenidade os novos fiéis para assim serem gerados à vida nova em Cristo e na Igreja.

1. Compreensão do catecumenato antigo
Na documentação patrística é difícil encontrar o termo catecumenato o qual indicava o tempo de formação para aqueles e aquelas que recebiam uma instrução oral. No fim do segundo século as pessoas que desejavam tornarem-se cristãos eram acolhidas na comunidade eclesial entre os aspirantes ao batismo com o nome de catecúmenos. A preparação ao batismo se articulava em duas etapas: uma remota, na qual os candidatos recebiam o nome de catecúmenos e uma próxima que habitualmente coincidia com a quaresma, aonde os inscritos ao batismo chamavam-se competentes ou eleitos no Ocidente e iluminandos no Oriente. As duas categorias de candidatos: catecúmenos e competentes eram preparados ao batismo. Por isto podemos dizer que o catecumenato antigo no sentido forte da palavra era o tempo da formação daqueles e daquelas que desejavam tornarem-se cristãos; compreendia a primeira acolhida dos novos membros na comunidade cristã até o limiar do batismo, confirmação e eucaristia.

2. O seu desenvolvimento nas Igrejas do Oriente e do Ocidente
O final do segundo e início do terceiro século prosseguiu o catecumenato na vida eclesial. Assumiu uma estrutura orgânica e foi documentado nas principais Igrejas do Oriente e do Ocidente. As testemunhas mais significativas foram: Hipólito, Tertuliano e Orígenes. Muitos foram os fatores que possibilitaram a instituição do catecumenato no terceiro século: antes de tudo a influência da tradição judaica que exigia a preparação para as pessoas ingressarem na religião hebraica. Depois, o surgimento das perseguições, muito fortes nos III e IV séculos, o fenômeno dos lapsis ou apóstatas, a difusão de seitas e de grupos cristãos heterodoxos que se desenvolveram e conseguiam adeptos entre os fiéis da Igreja; isto fez advertir a exigência de uma formação mais aprofundada e organizada para aqueles que se aproximavam à fé para tornar-se cristãos. Por fim, um rigorismo representado em modo particular em Roma por Hipólito, em Cartago por Tertuliano e em Alexandria por Orígenes uma vez que estes contribuíram para uma organização exigente e severa da preparação ao batismo, confirmação e eucaristia.

3. A formação dada no catecumenato
A formação do novo membro no caminho catecumenal se fundava sobre uma tríplice experiência: ouvir a palavra de Deus de uma forma especial com a catequese, exercícios ascético-penitenciais, e ritos e celebrações. Na realidade estes três aspectos eram interligados em vista do crescimento espiritual dos candidatos no caminho ao batismo. Hipólito, Tertuliano e Orígenes falavam desta tríplice dimensão do processo formativo.

A catequese segundo os Padres tinha como objetivo suscitar no candidato uma reposta de fé e uma transformação na sua vida. Os exercícios ascético-penitenciais eram numerosos e também exigidas obras de caridade em vista do processo catecumenal visando à conversão das pessoas. Os exorcismos eram ritos de purificação e com a ajuda do Senhor permitiam a quebra das correntes com o espírito do mal. Depois de alguns dias tinha a entrega do Símbolo e a sua devolução, feita publicamente como lembra a peregrina de Egéria (século quarto), pelo bispo com a presença dos fiéis, cujo significado como lembra Santo Agostinho é apresentado como regra da fé, síntese de tudo quanto se deve crer para a salvação.

4. O processo do caminho catecumenal
O fim da formação catecumenal do candidato era a admissão ao batismo com o seu ritual. Antes de tudo a benção da água, com uma oração. Em algumas igrejas o candidato completamente nu, vinha ungido em todo o seu corpo. Para Ambrósio de Milão e João Crisóstomo a unção simbolizava a ajuda para fortificar o corpo no combate cristão. Depois se entrava no coração do ato batismal, que nos séculos quarto e quinto eram por imersão. As fórmulas batismais quase sempre trinitárias eram essencialmente duas: uma tríplice interrogação dirigida ao candidato: Crês em Deus Pai… crês em Jesus Cristo.. crês no Espírito Santo? ou também usando o verbo na forma passiva: Tal… é batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Depois seguiam os ritos pós-batismais.

A unção da crisma, que mais tarde derivaram os nomes de Crisma no Oriente e em Roma de confirmação dada pelo bispo. O rito da veste branca é presente em numerosas testemunhas do quarto e quinto século tanto em Ocidente como no Oriente; símbolo da inocência batismal para Ambrósio e do esplendor da alma.

Enfim a iniciação sacramental terminava com a celebração da eucaristia; os neófitos saídos do batistério entravam em fileira na sala da eucaristia, aonde eram acolhidos pela comunidade dos fiéis. Habitualmente eles ocupavam um lugar a eles reservado e pela primeira vez tomavam parte à celebração eucaristia, que iniciava com o ofertório e se aproximavam à mesa eucarística. Para Teodoro de Mopsuéstia o neófito completava com sua participação ao mistério pascal e assim era plenamente inserido na Igreja.

Na semana seguinte da Páscoa, especialmente nos séculos quarto e quinto, ordinariamente os recém batizados eram introduzidos à compreensão dos mistérios celebrados na vigília pascal com catequeses mistagógicas que eram dadas habitualmente pelo bispo. Enfim como nos lembra Agostinho, no domingo in albis os que receberam os sacramentos da iniciação cristã depositavam as suas vestes brancas e abandonados os postos a eles reservados se misturavam à multidão dos fiéis.

Conclusão
O catecumenato antigo compreendia um processo de acolhida, acompanhamento, formação e experiência sacramental na qual a pessoa se convertia e tornava-se cristã. O objetivo do catecumenato era levar o futuro membro pelo batismo à participação do mistério da morte e ressurreição de Cristo, receber pela confirmação, a plenitude dos dons do Espírito Santo, e pela eucaristia unido ao corpo e sangue de Cristo. Todo o processo terminava com as catequeses mistagógicas dadas à semana seguinte da Páscoa, isto é na oitava pascal. É importante o conhecimento deste itinerário formativo para que hoje as pessoas sejam discípulos, discípulas, missionários e missionárias de Jesus Cristo, sejam atuantes na vida da Igreja, na sociedade e um dia pela graça de Deus, participantes de seu Reino. O tema central da Assembleia dos bispos possibilitará esse resgate para uma atuação melhor como Igreja e como pessoas que amam a Jesus Cristo no testemunho que se deva dar neste mundo com fé, esperança e caridade.

Bibliografia:
Cavallotto, Giuseppe. Catecumenato Antico. EDB. Bologna, 1996.
Catecumenato/Discepolato. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane, A-E. Marietti, Genova-Milano, 2006.

Fonte: CNBB

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