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Vigília Pascal: A Luz da Ressurreição

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A comemoração da Ressurreição do Cristo ocorre, desde a mais remota memória da Tradição, na noite de sábado para domingo, pois na manhã do domingo – o primeiro dia da semana – o Senhor já não está no sepulcro (cf. evangelho Mt 28,1 e par.). Além disto, e não obstante a Páscoa judaica ter outra data (seria a data da Última Ceia), a tradição cristã associou a noite da Ressurreição à noite da Páscoa descrita em Ex 12,42, “uma noite de vigília em honra do Senhor”. É a noite da libertação. E mais ainda: esta noite ganha o sentido de uma recapitulação do universo, o começo da criação nova e escatológica, pois o Senhor Ressuscitado é a primícia da nova criação. A Ressurreição de Jesus é o penhor da renovação do universo.

Esta liturgia deve falar por si mesma: o mistério da nova luz que surge nas trevas, Cristo que venceu a morte e o pecado. Os fiéis se unem a este mistério, acendendo uma vela na chama do círio pascal, quando de sua entrada triunfal na igreja: é a participação na vida ressuscitada do Senhor. Depois do Exultet, seguem imediatamente as leituras do A.T. (mín. 3, máx. 7) e do N.T. (epístola e evangelho).

Entre as leituras do A.T., a 3ª  é obrigatória, por ser a recordação específica desta noite: a passagem do Mar Vermelho (cf. adiante). Aconselha-se ler a 1ª  leitura (a criação), por causa de seu sentido cósmico e a ligação imediata com o tema da luz na primeira parte da celebração; ela tem como responsório o maravilhoso SI 104[ 103]. Entre a 1ª  leitura e a seguinte reza-se uma oração, que expressa como a re-criação em Cristo supera ainda a criação inicial. A 2ª  leitura oferecida pelo Lecionário vê na vocação e obediência de Abraão (sacrifício de Isaac) o início da vocação universal à salvação; a oração resume este sentido. A 3ª  leitura (noite pascal e libertação do Egito, Ex 14) é obrigatória. Termina no anúncio do cântico de vitória (Ex 15,1); portanto, é normal que este “cântico de Moisés e Míriam (Maria)” seja também cantado ou, pelo menos, declamado (3° responsório, Ex 15). A 4ª  leitura é uma palavra de consolação a Israel no Exílio (Is 54); a 5ª  é o convite para o banquete messiânico, em Is 55; a 6ª  apresenta a Sabedoria que reina sobre o cosmo e a grandeza do único Deus (Br 3-4); a 7ª  (Ez 36) anuncia a reunião escatológica dos filhos dispersos de Israel, também entendida como início de uma nova era; esta leitura é concluída pelo SI 42-43[41-42] (“as águas vivas”) ou, à escolha, pelo SI 51[50], segunda parte (dom de um coração novo). Estas leituras formam, por seu conteúdo e simbolismo, uma catequese batismal. Seria interessante organizar, por exemplo, no Sábado Santo, uma celebração ou círculo bíblico com estas leituras, para os que se querem preparar mais conscientemente para a renovação do compromisso batismal durante a noite pascal.

Depois das leituras do A.T., acompanhadas de seus respectivos responsórios e orações, entoa-se o Glória, vitorioso, com acompanhamento de instrumentos e sinos. Segue a oração do dia, que alude à celebração batismal, que tradicionalmente ocorre nesta noite e em função da qual é concebida também a 8ª  leitura, tirada do N.T. (Rrn 6,3-11). Esta compara o batismo com a descida no sepulcro, para que daí os fiéis co-ressuscitem com o Cristo; o homem antigo é crucificado, revestimo-nos do homem novo; pecado e morte já não reinam sobre nós.

Nesta altura, a liturgia faz uma espécie de pausa, para que o presidente da celebração entoe, solenemente, o Aleluia pascal, repetido pelos fiéis, e isto, três vezes. Depois disso, o cantor ou coro entoa a aclamação ao evangelho: “A destra do Senhor fez maravilhas, a destra do Senhor me levantou … A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular”. O evangelho narra o episódio do túmulo vazio. É específico de Mt o final da narração, a aparição de Jesus ressuscitado às mulheres, que são mandadas para anunciar a ressurreição aos irmãos.

A terceira parte inicia com a ladainha de todos os santos (suprimida quando não há batizado nem bênção da água batismal). Segue a bênção da água, na qual é submergido o círio pascal, simbolizando a descida de Cristo no sepulcro e sua ressurreição, ou seja, o mesmo simbolismo batismal que Paulo desenvolve na leitura que acaba de ser proferida (Rm 6,3ss). Segue a administração do batismo e a bênção da água que os fiéis queiram levar para casa como uma espécie de extensão do rito batismal. Por fim,  renova-se o compromisso batismal, depois do que a liturgia prevê a solene aspersão dos fiéis com água benta, cantando-se o tradicional responsório Vidi Aquam.

A quarta parte, a liturgia eucarística, destaca a ideia de Cristo Cordeiro pascal (oração sobre as oferendas, prefácio da Páscoa I, canto da comunhão). A tipologia batismal desaparece, dando lugar à ideia sacrifical. Contudo, só há participação na doação sacrifical do Cristo, onde houver a participação da fé, assinalada pelo batismo.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada (Papa Emérito Bento XVI)

A Páscoa é a festa da nova criação. Jesus ressuscitou e nunca mais morre. Arrombou a porta que dá para uma nova vida, que já não conhece doença nem morte. Assumiu o homem no próprio Deus. «A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus»: dissera São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (15, 50). E todavia Tertuliano, escritor eclesiástico do século III, a propósito da ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição, não temera escrever: «Tende confiança, carne e sangue! Graças a Cristo, adquiristes um lugar no Céu e no Reino de Deus» (CCL II, 994). Abriu-se uma nova dimensão para o homem. A criação tornou-se maior e mais vasta. A Páscoa é o dia duma nova criação, mas por isso mesmo, neste dia, a Igreja começa a liturgia apresentando-nos a criação antiga, para aprendermos a compreender bem a nova. E assim, na Vigília Pascal, a Liturgia da Palavra começa pela narração da criação do mundo. A propósito desta e no contexto da liturgia deste dia, são particularmente importantes duas coisas. Em primeiro lugar, a criação é apresentada como uma totalidade da qual faz parte o fenômeno do tempo. Os sete dias são imagem duma totalidade que se desenvolve no tempo, aparecendo os dias ordenados até ao sétimo, o dia da liberdade de todas as criaturas para Deus e de umas para as outras. Por conseguinte, a criação está orientada para a comunhão entre Deus e a criatura; a criação existe para que haja um espaço de resposta à glória imensa de Deus, um encontro de amor e liberdade. Em segundo lugar, na Vigília Pascal, a Igreja fixa a atenção sobretudo na primeira frase da narração da criação: «Deus disse: “Faça-se a luz”!» (Gn 1, 3). Emblematicamente, a narração da criação começa pela criação da luz. O sol e a lua são criados somente no quarto dia. A narração da criação designa-os como fontes de luz, que Deus colocou no firmamento do céu. Deste modo, priva-os propositalmente do caráter divino que as grandes religiões lhes tinham atribuído. Não! Não são deuses de modo algum; são corpos luminosos, criados pelo único Deus. Entretanto já os precedera a luz, pela qual a glória de Deus se reflete na natureza do ser que é criado.

Que pretende a narração da criação dizer com isto? A luz torna possível a vida; torna possível o encontro; torna possível a comunicação; torna possível o conhecimento, o acesso à realidade, à verdade. E, tornando possível o conhecimento, possibilita a liberdade e o progresso. O mal esconde-se. Por conseguinte, a luz aparece também como expressão do bem, que é luminosidade e cria luminosidade. É de dia que podemos trabalhar. O fato de Deus ter criado a luz significa que Ele criou o mundo como espaço de conhecimento e de verdade, espaço de encontro e de liberdade, espaço do bem e do amor. A matéria-prima do mundo é boa; o próprio ser é bom. E o mal não vem do ser que é criado por Deus, mas existe só em virtude da sua negação. É o «não».

Na Páscoa, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Deus disse novamente: «Faça-se a luz!». Antes tinham vindo a noite do Monte das Oliveiras, o eclipse solar da paixão e morte de Jesus, a noite do sepulcro. Mas, agora, é de novo o primeiro dia; a criação recomeça inteiramente nova. «Faça-se a luz!»: disse Deus. «E a luz foi feita». Jesus ressuscita do sepulcro. A vida é mais forte que a morte. O bem é mais forte que o mal. O amor é mais forte que o ódio. A verdade é mais forte que a mentira. A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus. Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da ressurreição e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós.

Mas isto, como pode acontecer? Como é possível chegar tudo isto até nós, de tal modo que não se reduza a meras palavras, mas se torne uma realidade que nos envolve? Por meio do sacramento do Batismo e da profissão da fé, o Senhor construiu uma ponte até nós, pela qual o novo dia nos alcança. No Batismo, o Senhor diz a quem o recebe: Fiat lux – faça-se a luz. O novo dia, o dia da vida indestrutível chega também a nós. Cristo toma-te pela mão. Daqui para a frente, serás sustentado por Ele e assim entrarás na luz, na vida verdadeira. Por isso, a Igreja antiga designou o Batismo como «photismos – iluminação».

Porquê? A escuridão que verdadeiramente ameaça o homem é o fato de que ele é, na verdade, capaz de ver e investigar as coisas palpáveis, materiais, mas não vê para onde vai o mundo e donde o mesmo venha; para onde vai a sua própria vida; o que é o bem e o que é o mal. Esta escuridão acerca de Deus e a escuridão acerca dos valores são a verdadeira ameaça para a nossa existência e para o mundo em geral. Se Deus e os valores, a diferença entre o bem e o mal permanecem na escuridão, então todas as outras iluminações, que nos dão um poder verdadeiramente incrível, deixam de constituir somente progressos, mas passam a ser simultaneamente ameaças que nos põem em perigo a nós e ao mundo. Hoje podemos iluminar as nossas cidades de modo tão deslumbrante que as estrelas do céu deixam de ser visíveis. Porventura não temos aqui uma imagem da problemática que toca o nosso ser iluminado? Nas coisas materiais, sabemos e podemos incrivelmente tanto, mas naquilo que está para além disto, como Deus e o bem, já não o conseguimos individuar. Para isto serve a fé, que nos mostra a luz de Deus, a verdadeira iluminação: aquela é uma irrupção da luz de Deus no nosso mundo, uma abertura dos nossos olhos à verdadeira luz.

Por fim, queridos amigos, queria ainda acrescentar um pensamento sobre a luz e a iluminação. Na Vigília Pascal, a noite da nova criação, a Igreja apresenta o mistério da luz com um símbolo muito particular e humilde: o círio pascal. Trata-se de uma luz que vive em virtude do sacrifício: a vela ilumina, consumindo-se a si mesma; dá luz, dando-se a si mesma. Este é um modo maravilhoso de representar o mistério pascal de Cristo, que Se dá a Si mesmo e assim dá a grande luz. Uma segunda ideia, que a reflexão sobre luz da vela nos sugere, deriva do fato de a mesma ser fogo. Ora, o fogo é força que plasma o mundo, poder que transforma; e o fogo dá calor. E aqui se torna novamente visível o mistério de Cristo: Ele, a luz, é fogo; é chama que queima o mal, transformando assim o mundo e a nós mesmos. «Quem está perto de Mim, está perto do fogo»: assim reza um dito de Jesus, que nos foi transmitido por Orígenes. E este fogo é ao mesmo tempo calor: não uma luz fria, mas uma luz na qual vêm ao nosso encontro o calor e a bondade de Deus.

O Precónio, o grande hino que o diácono canta ao início da Liturgia Pascal, de modo muito discreto chama a nossa atenção ainda para outro aspecto. Lembra-nos que o material do círio se fica a dever, em primeiro lugar, ao trabalho das abelhas; e, assim, entra em cena a criação inteira. No círio, a criação torna-se portadora de luz. Mas, segundo o pensamento dos Padres, temos aí também uma alusão implícita à Igreja. Nesta, a cooperação da comunidade viva dos fiéis é parecida com o trabalho das abelhas; constrói a comunidade da luz. Assim podemos ver, no círio, também um apelo dirigido a nós mesmos e à nossa comunhão com a comunidade da Igreja, que existe para que a luz de Cristo possa iluminar o mundo.

Neste momento, peçamos ao Senhor que nos faça sentir a alegria da sua luz, de modo que nós mesmos nos tornemos portadores da sua luz, para que, através da Igreja, o esplendor do rosto de Cristo entre no mundo (cf. LG 1).

Fonte: franciscanos.org

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