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Teologia da Prosperidade

Há uma enorme diferença entre o enfoque que a Bíblia apresenta no Antigo Testamento e no Novo a respeito de recompensas e castigos destinados às pessoas. A primeira Aliança, notadamente através dos Salmos e outros livros, professa que o homem justo, que pratica o bem, já obtém sua recompensa nesta terra e será livre de seus inimigos. Quanto aos maus, não demora muito e serão punidos ou destruídos. É a assim chamada Teologia da Prosperidade. Dentro de seu contexto, crer significa aguardar os bens materiais prometidos, que se restringiriam aos benefícios a serem recebidos já nesta vida, sem levar em consideração o transcendental e, muito menos, a pós-morte. A Igreja Católica considera a Teologia da Prosperidade uma falsa teologia porque é a expressão de uma religiosidade depauperada por interesse de cura e benefícios pessoais que Deus, nos seus templos, pode conceder. A fé se torna assim antropocêntrica em vez de ser teocêntrica. A teologia da prosperidade é a mais alta heresia do cristianismo na contemporaneidade.

Jesus não pregou a chamada Teologia da Prosperidade. Os adeptos dessa falsa teologia convertem a religião num negócio: quanto mais você der a Deus, tanto mais ficará rico. Pregadores desta “teologia” exploram a religiosidade do povo, prometendo riqueza e sucesso na vida em troca de ofertas em dinheiro. Porém não foi isso que Jesus prometeu a seus discípulos. Ele quer que trabalhemos para progredir e viver dignamente. Quer também que ajudemos aqueles que não têm o necessário para sustentar-se. Deus não gosta da pobreza e miséria. Mas também não considera o dinheiro a coisa mais importante, nem uma garantia de nossa felicidade. Ao contrário, Jesus ensina que os que amam as riquezas não entrarão no Reino de Deus. Disse Jesus: “Quão difícil será para os que têm riquezas entrar no Reino de Deus” (Mc. 10, 23). “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mc. 10, 25). O que agrada a Deus e enche o coração de paz é viver honestamente, respeitar o direito dos outros, perdoarem os que nos ofendem colocar os dons que nos deu a serviço dos mais fracos. “Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt. 6, 24).

Católicos não aceitam a Teologia da Prosperidade lembrando-se da morte do Justo por excelência – o Cristo – “que passou por esta vida só fazendo o bem” (At 10, 38) e, assim mesmo, foi morto. Essa evidência neo-testementária enfraquece a fundamentação da referida Teologia da Prosperidade. Essa teologia é uma doutrina que coloca Deus como estando à disposição do homem para fazer o que os homens querem que ele faça. Então as pessoas procuram Deus não pelo que Ele é, mas pelo que Ele dá, pelo que Ele pode oferecer. Assim, na propaganda de algumas denominações cristãs há promessas de curas de toda espécie de doença, de enriquecimento rápido, de sucesso material imediato etc. desde que o membro da igreja paga generosamente o dízimo. Assim, verifica-se que a igreja não difere do caso do sócio de um clube que dissesse ao presidente do clube: “Senhor Presidente não esqueça que eu sou sócio e pago pontualmente minha mensalidade! Assim, tenho direitos adquiridos e exijo que sejam observados mediante uma imediata prestação de serviços”. A pessoa assim julga ter direitos sobre Deus, direitos que ele reivindica e que Deus não pode deixar sem atendimento. Ora tal concepção é falsa. Deus não pode ser coagido a tal ou tal intervenção; ninguém tem direitos sobre Deus, pois a própria paga dos dízimos é dom do Senhor Deus. Diz São Paulo em 1 Cor 4,7. “Que é que possuís que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesse recebido?”. A verdadeira piedade não julga que o valor da oração depende do dinheiro que a acompanha, mas sim da fé e do amor do orante. A oração não pode pretender impor determinado comportamento a Deus, mas subordina seu pedido à vontade do Pai, como fazia Jesus no Horto das Oliveiras: “ Pai, se possível, que o cálice passe sem que eu o beba; faça-se, porém, a tua vontade e não a minha” (Mt 26, 39). O cristão não é sócio de um clube, mas é membro do Corpo de Cristo que é a Igreja. É este o fundamento de sua confiança no beneplácito do Pai. (Cf. Pergunte e Responderemos, julho, 2006, p.310). Nós devemos querer servir a Deus. Não devemos ir à igreja por interesse particular, mas o nosso interesse primordial deve ser adorar, louvar e agradecer a Deus, buscar Deus acima de tudo, seguir a Lei de Cristo. O culto nas igrejas deve ser um serviço prestado a Deus. Infelizmente, muitas pessoas não estão indo para os cultos cristãos para louvar e agradecer a Deus, mas sim para receber alguma coisa de Deus, porque a propaganda que se faz é essa. O Novo Testamento, gradualmente se divorciou da Teologia da Prosperidade, pela qual o justo poderia estar seguro de ser logo recompensado e o adversário punido. Os maus nem sempre sofrem os desastres previstos pelos Salmos para acontecer nesta vida. A Teologia da Prosperidade não combina bem com os seguintes versículos da Bíblia: “Eis que eu vos digo: Não vos preocupeis por vossa vida, com o que comereis, nem por vosso corpo, com o que vestireis. A vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais que a roupa? Olhai os pássaros do céu: não semeiam nem ceifam, não ajuntam em celeiros; e vosso Pai celeste os alimenta! Não valeis vós muito mais do que eles? E quem dentre vós pode, à força de preocupar-se, prolongar, por pouco que seja, a sua existência? E com a roupa, por que inquietar-vos? Aprendei dos lírios dos campos, como crescem; não se afadigam nem fiam; ora, eu vos digo, o próprio Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles! Se Deus assim veste a erva dos campos, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, não fará ele muito mais por vós, gente de pouco fé? Não vos preocupeis, portanto, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? Tudo isso os pagãos procuram sem descanso -, pois bem sabe o vosso pai celeste que precisais de todas essas coisas. Procurais primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo isso vos será dado por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã : o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo” (Mt. 6, 25-34). Nas igrejas que pregam a Teologia da Prosperidade ninguém fala mais sobre justiça social, sobre direitos humanos, sobre o desvio do dinheiro público, ou da riqueza mal adquirida etc. Deus protege o fiel que paga o dízimo generosamente. Se você tiver fé e ofertar dez ou cem reais, Deus lhe dará muito mais. Na bíblia embora Cristo tenha prometido abençoar o seu Povo, Ele não prometeu fazer todos os cristãos ricos em bens materiais. Muita gente vai atrás desse engodo, pensando que pode agradar a Deus sem converter o seu coração. É muito difícil reconciliar a Teologia da Cruz de São Paulo: “eu só conheço Jesus Cristo e este, crucificado” (1 Cor 2,2) com a Teologia da Prosperidade. Jesus, o mais justo que atravessou o palco deste mundo, “não tinha onde colocar sua cabeça” (Lc 9.58 e Mt 8, 20) e quando morreu na cruz sua única possessão era uma velha túnica. Aparentemente a Teologia da Cruz de São Paulo está em rota de colisão com os ideais de riqueza, abundância e de existência “abençoada” dos novos cristãos. Basicamente a Teologia de São Paulo, que não exclua outras teologias, está sendo apresentada como detrimental para cristãos que se consideram como progressistas neste mundo materialista, consumista e hedonista. Seria oportuno que todos refletissem e verificassem o ensinamento de Jesus sobre o Reino de Deus, que sem alijar a prosperidade e o valor da cruz, ofereça uma motivação muito mais perfeita para a vida de um cristão engajado na vida do século XXl.

Pe. Dr. Brendan Coleman Mc Donald, Redentorista e Professor Titular aposentado da UFC.

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1 Comentário »

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  • Magno disse:

    Durante duas décadas de minha vida, eu fiz uso de Anafranil-50mg diárias e Rivotril-2mg, devido a um severíssimo quadro psiquiátrico, caracterizado por depressão nervosa profunda, fobia social, alterações cognitivas, obsessão suicida, alucinações, apatia, inibição psicomotora (efeito zumbi), entre tantos outros, além de ansiedade extrema. Ao final desse tempo, devido a um quase infarto induzido pelo uso crônico das medicações, me rendi à única verdade nesse mundo de sofismas, a Palavra de Deus, o Deus de Abraão, sem adaptações convenientes à natureza humana. Hoje, sou uma pessoa liberta em Cristo Jesus. Tenho a plenitude de Deus em mim e a manifestação de Seus Frutos: paz, amor, alegria, mansidão, domínio próprio, benignidade, longanimidade (Gálatas 5). Se eu tivesse encontrado esse Deus maravilhoso ao qual sirvo logo no início dos meus problemas, eu teria terminado meus estudados, me profissionalizado dentro da minha vocação, sendo uma pessoa próspera. Então, as frustrações, inclusive financeiras, apesar de reais, são apenas situações injustas criadas pelo diabo.

    Claro que uma coisa é ser próspero para a glória de Deus, outra é ser próspero para a glória pessoal.


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