Atualidades

Niilismo e a decadência moral brasileira

padrePor Pe. Antonio Augusto Menezes do Vale*

O Brasil vive uma grande decadência moral. A progressiva bancarrota da metafísica tem arrastado consigo, como um efeito dominó, os valores morais fundamentais. A sociedade brasileira está implementando progressivamente o niilismo como base para seu pensar e agir.

O niilismo é um processo de nadificação. No que consiste este processo? No esvaziamento dos princípios fundamentais que orientam nossa ação, princípios que foram pensados pela tradição metafísico-teológica ocidental como eternos e imutáveis. A destruição desses princípios, naquilo que alguns chamam hoje de pós-modernidade, leva a uma nova compreensão do ser humano com a renúncia desse termo “ser”, que dá ao homem um valor de fim em si mesmo e de não ser usado como meio para finalidades escusas.

Com o niilismo o humano é ressignificado não possuindo um valor em si mesmo, podendo ser instrumentalizado e relativizado. É a própria desconstrução do conceito de homem que conhecemos, oferecido pela tradição metafísica e teológica do ocidente. O “nada”, apregoado pelo niilismo, é ainda mais radical, visa a destruição do lugar de onde emanam esses conceitos fundamentais, nos quais o ser humano se fundamenta: anuncia a morte de Deus e põe toda linguagem metafísico-teológica na esfera do ridículo, do objeto de chacota, do superado, do sem sentido. Basta lembrarmos do recente vídeo do grupo ateu, travestido de “humor”, porta dos fundos.

O que resta desse processo sombrio? Apenas o homem e sua vida vazia, procurando dar a si mesmo e ao mundo um novo sentido, agora sem Deus, sem valores fundamentais, sem nenhuma raiz profunda. As consequências desse pensamento estão claras e evidentes nos noticiários e programas das diversas formas de mídia: a vida humana profundamente desrespeitada em sua dignidade, haja vista, o humano, segundo o niilismo, não haver dignidade em si mesmo; o enfraquecimento das instituições tradicionais, tais como família, sociedade civil e o Estado, a religião, exceto aquelas formas religiosas que são a expressão desse niilismo, uma religião do tipo “light”; no cenário político, o abandono das prioridades, tais como educação, saúde, segurança, moradia, etc., a favor das frivolidades; confecção de leis e discussão sobre assuntos que não têm importância direta sobre a vida e as urgências do povo brasileiro; a mídia, através de novelas e reality shows imprimindo toda a sua força e potencialidade contra os valores que são fundamentais até para uma convivência sadia na sociedade, sob a escusa de que está apenas reproduzindo a realidade. Mas, pergunta-se: a realidade é só isso? Somente frivolidades e cabeça vazia?; uma massa intelectual a favor dos chamados “rolezinhos” e da apologia à maconha, entre outros, sob a desculpa de que quem é contra tais estados de coisas faz segregação cultural. Mas, no quê essas realidades mudam substancialmente a situação desses jovens que nascem na pobreza, marginalidade e exclusão social? Se a intenção é dar visibilidade a essa situação, o cinema já o fez, o filme “Cidade de Deus”, “Pixote”, “Tropa de Elite I e II” são alguns dos exemplos, bem como os inúmeros noticiários de jornal impresso e televisivo, os assaltos nas ruas e em residências a luz do dia, o povo pedinte, os decapitados de Pedrinhas no Maranhão; sem falar dos problemas surgidos pela destruição da natureza; a política infestada de “ratos” eleitos a custa da necessidade e ignorância das massas acéfalas.

A minha impressão é que o niilismo está corroendo a democracia brasileira por dentro, tornando-a frágil. Uma tal democracia é um passo para um regime autoritário, haja vista, ser impossível uma sociedade regida pelo nada, pelo caos. Oxalá nossas futuras gerações sejam mais inteligentes e construam uma verdadeira democracia, retomando os princípios mais básicos para se construir uma sociedade menos doente.

*Padre da Arquidiocese de Fortaleza estudante em Roma

Compartilhe

Subir

1 Comentário »

1 Comentário »

  • graciana Menezes disse:

    Li com atenção o texto e de forma muito simples exponho meu sintético modo de pensar.
    No ano de 1986, quando eu era acadêmica de Filosofia Pura na extinta FAFIFOR, o nosso grandioso professor de Moral e Ética, Padre Manfredo Ramos, já punha à nossa disposição seus conceitos e suas profundas avaliações sobre a questão de tal enfermidade que aos poucos invade a sociedade como um todo.
    No meu modo de pensar a decadência moral é considerada hoje, um dos maiores dilemas da pós-modernidade. Creio não ser preciso ir longe para se reconhecer o peso que essa enfermidade moral social traz em si, para ser considerada “grande decadência moral” conforme expressa o texto.


Deixe seu Comentário

Nome (necessário)

E-mail (não será publicado) (necessário)

Website

Atualidades

Lutero e sua marca na História

Inauguração da Centro de Evangelização do Shalom Bela Vista

Papa Francisco pede fim de armas nucleares

Presidente da CNBB foi nomeado pelo Papa Francisco como Relator Geral do Sínodo 2018

Editorial – novembro 2017: “Ano do Laicato no Brasil”


QR Code Business Card