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[ARTIGOS] Santificação do artesão da paz

geovane200Padre Geovane Saraiva*

Com o sim da Sé Apostólica ao processo de santificação de Dom Helder Câmara, somos chamados a meditar sobre sua vida,  marcada pela garra, força, profecia e mística, como um indizível hino de louvor a Deus, a ponto de assim se expressar:  “Se eu pudesse sairia povoando de sono e de sonhos as noites indormidas dos desesperados”. Daí seu abençoado sonho  de andar pelo mundo inteiro anunciando com voz profética o fim da violência, da racismo, das guerras e das desigualdades sociais. Nosso ‘Artífice da Paz’, Segundo Dom Luciano Mendes de Almeida, soube despertar nos jovens a vontade de viver e fazer o bem, além de comunicar a muitos corações a fome e a sede de Deus.

Como é importante recordar o que disse dele Alceu Amoroso Lima: “Os profetas só são reconhecidos fora de sua pátria, como os Evangelhos nos ensina e como a experiência da história atesta”. Por isso mesmo é que olhamos para sua força imaginadora, sua criatividade e, sobretudo, sua capacidade e criatividade de realizar santamente o projeto do Pai. Sonhou com uma Igreja renovada, fundamentada na esperança, como ele afirmava: “Esperança é crer na aventura do amor, jogar nos homens, pular no escuro, confiando em Deus”. Ele se antecipou, em ideias e vestes, ao aggiornamente que o Papa João XXIII promoveu e com o qual iria revolucionar, não apenas a Igreja, mas o nosso mundo hodierno.

O Jornal Le Monde de Pais se expressou assim  em determinada ocasião sobre o ‘artesão da paz’: “Célebre e convertido, ele era puro e simplesmente, como quer o Evangelho, amigos dos pobres”. Por causa dos empobrecidos, Dom Helder foi um articular, na melhor expressão da palavra, um conspirador, pensando no bem, com suas iniciativas, compartilhadas por muita gente da Igreja, desejando fazer com que a Igreja-Instituição se comprometesse e se engajasse na causa dos necessitados, identificando-se com seu fundador e mestre, Nosso senhor Jesus Cristo. Pensava e deseja ele uma Igreja despojada, pobre servidora.

Dele temos a imprescindível participação no “Pacto das Catacumbas”, de 16 de novembro de 1965, que foi uma excelente oportunidade para os bispos, pensarem e refletirem sobre eles próprios, no sentido de se fazer uma experiência de vida, na simplicidade e na pobreza. Concretamente, que se começasse a pensar em uma Igreja encarnada e comprometida com a realidade dos empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”, renunciando as aparências de riqueza, dizendo não as vaidades, conscientes da justiça e da caridade, através desse documento salutar e desafiador.

Certamente sua fidelidade a Jesus através do referido ‘Pacto das Catacumbas’ o levou a fazer uma sugestão profética e filial ao Papa Paulo VI: “Santo Padre, abandone seu título de rei e vamos reconstruir a Igreja como nosso Mestre, sendo pobres. Deixe os palácios do Vaticano, vá morar numa casa na periferia de Roma. Pode até ter uma praça para saudar e abençoar as ovelhas. Depois, Santo Padre, convide a todos os bispos a largarem tudo o que indica poder, majestade: báculos, solidéus, mitras, faixas peitorais, batinas roxas. Vamos amontoar tudo na Praça de São Pedro e fazer uma grande fogueira, dizendo de peito aberto para o povo: Vejam, não somos mais príncipes medievais. Não moramos mais em palácios. Todos somos pastores, somos pobres, somos irmãos”.

Encerro com as palavras do do Papa Francisco, ao dizer nesta manhã de 20/04/2015: “Sempre existiu e existe para todos nós esta tentação do poder, a tentação de passar da admiração e do assombro religioso para a hipocrisia e o poder mundano. E o Senhor alerta-nos para esta tentação dando-nos o testemunho dos santos e dos mártires –  e disse mais: O Senhor desperta-nos com o testemunho dos santos, com o testemunho dos mártires, que todos os dias nos anunciam que a missão é caminhar no caminho de Jesus: anunciar o ano da graça”. A salutar reflexão do Sumo  Pontífice ajude-nos na compreensão da profecia e mística do ‘Dom Paz’, quando vamos dar início oficialmente no próximo 03 de maio do ano em curso seu caminho de santificação, nesta corajosa assertiva:”…nos rostos gastos pela fome e esmagados pelas humilhações vi o rosto do Cristo Ressuscitado”. Amém!

*Escritor, blogueiro, colunista, vice-presidente da Previdência Sacerdotal e Pároco de Santo Afonso, Parquelândia, Fortaleza-CE – geovanesaraiva@gmail.com

 

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