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[Artigo] Noites mal dormidas dos desesperados

Noites mal dormidas dos desesperados

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Padre Geovane Saraiva*

Dom Helder Câmara (1909-2009), iniciou sua vida de padre em profunda sintonia e comunhão com Jesus, Pão da Vida, Pão descido do Céu, concretamente no exemplo do seu santinho da ordenação sacerdotal, em Fortaleza Ceará (15/08/1931), através do qual assim se manifestou: Angelorum esca nutrivisti populum tuum – teu povo se alimenta do pão do céu. Por ser um cidadão planetário, o mundo foi seu campo de ação apostólico, mas vivendo-a a partir dos 27 anos de idade na cidade maravilhosa – RJ (1936-1964). Esquecê-lo jamais o místico, que soube sonhar com as realidades últimas, na função de Arcebispo de Olinda e Recife, a partir de abril de 1964. Associados ao nosso Deus altíssimo, terníssimo e boníssimo, elevamos fervorosas preces, desejosos de vê-lo beatificado e canonizado.

Iniciado o processo de sua beatificação e canonização do ‘Servo de Deus, Dom Helder Câmara’, na Arquidiocese de Olinda Recife (03/05/2015), lugar no qual residiu na condição de Arcebispo metropolitano e depois como Arcebispo Emérito (1964-1999). É indispensável saber olhar para o artesão da paz, na sua espiritualidade genuína e cristalina, quando sua oração ao Deus e Pai se transforma em ação e poesia: “Fomos nós, as tuas criaturas que inventamos teu nome!? O nome não é, não deve ser um rótulo colado sobre as pessoas e sobre as coisas… O nome vem de dentro das coisas e pessoas, e não deve ser falso… Tem que exprimir o mais íntimo do íntimo, a própria razão de ser e existir da coisa ou da pessoa nomeada… Teu nome é e só podia ser amor”.

Assaz a participação do artífice da paz no Concílio Vaticano II (1962-1965), agindo excepcionalmente nos bastidores com um articulador muito especial. Certa vez Dom Hélder confidenciou: “Uma de minhas maiores emoções, em toda minha vida, foi quando da abertura da primeira sessão do Concílio Vaticano II”. Em sua aula inaugural, o Papa João XXIII disse com força: “Aqui estamos para a nossa conversão” e ele mesmo se incluía. Isso significava que nós, cristãos, padres e bispos e até o Papa, precisávamos voltar às origens do cristianismo e a reaprender o Evangelho. Devemos beber novamente da fonte d’água da vida que é o próprio Deus.

O processo de beatificação de Dom Helder faz-nos pensar em Karl Rahner, sacerdote jesuíta, nascido na Alemanha (1904-1984); que foi um dos maiores e mais importantes teólogos do século XX, certamente o influenciou enormemente, deixando marcas profundas e forte presença no meio cristão, pela sua ação concreta em favor da Igreja, também seus dons e inteligência privilegiada, destacando-se como assessor do Concílio Vaticano II. Além de desempenhar um relevante papel, incentivando a Igreja Católica para que se abrisse ao mundo e às diversas tradições e culturas. Dizia ele com a coragem profética, bem dentro do espírito de Dom Helder, que lhe era peculiar, que o cristão do futuro será um místico ou não será nada.

Como místico, tornou-se conhecido no Brasil e no mundo inteiro, por sua luta em favor de uma humanidade livre, especialmente, os desafortunados da vida, os empobrecidos, os “sem voz e sem vez”, como ele costumava dizer. O Papa Francisco, logo no início de seu pontificado deu sinais concretos da importância do Concílio Vaticano II: dispensou a cruz de ouro, recusou o carro de luxo, pagou a sua conta na pensão, exortou os bispos a saírem dos palácios e a irem para as periferias, disse que a Igreja sem a Cruz é tão somente uma piedosa ONG, pediu a bênção dos fiéis e se esforça para dar rumo aos trabalhos pastorais nos nossos dias. Vejo a essência do seu pontificado nas palavras daquele que era invocado com nome ‘Dom da Paz’: “Que eu aprenda afinal, com a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a cobrir de véus o acidental e efêmero, deixando em primeiro plano, apenas o mistério da Redenção”.

Deveras Dom Helder, no seu sonho em favor de uma Igreja povo de Deus, servidora e despojada, restaurada e renovando no amor, dentro do espírito do Pacto das Catacumbas (16/11/1965), propôs ao Santo Padre, o Papa Paulo VI, uma sugestão filial quanto profética:  “Santo Padre, abandone seu título de rei e vamos reconstruir a Igreja como nosso Mestre, sendo pobres. Deixe os palácios do Vaticano, vá morar numa casa na periferia de Roma. Pode até ter uma praça para saudar e abençoar as ovelhas. Depois, Santo Padre, convide a todos os bispos a largarem tudo o que indica poder, majestade: báculos, solidéus, mitras, faixas peitorais, batinas roxas. Vamos amontoar tudo na Praça de São Pedro e fazer uma grande fogueira, dizendo de peito aberto para o povo: Vejam, não somos mais príncipes medievais. Não moramos mais em palácios. Todos somos pastores, somos pobres, somos irmãos”.

Ninguém melhor do que Dom Helder para perceber o rosto de Deus na dor, na angustia e no sofrimento do próximo: “…nos rostos gastos pela fome e esmagados pelas humilhações vi o rosto do Cristo Ressuscitado”.  Apesar de não ter convivido com Dom Helder, ao ingressar no seminário em 1974, passei a admirá-lo. Tive a sorte de estar com ele em três ocasiões. Sua vida foi um verdadeiro hino de louvor a Deus. Em 1948 como padre novo no Rio de Janeiro se expressou de modo extremamente profundo e em tom poético, ao externar: “Se eu pudesse sairia povoando de sono e de sonhos as noites mal dormidas dos desesperados”.

Escritor, blogueiro, colunista, vice-presidente da Previdência Sacerdotal e Pároco de Santo Afonso, Parquelândia, Fortaleza-CE – geovanesaraiva@gmail.com

 

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